Medo da fome

13 de abril de 2016

Vamos ‘desindustrializar’?

13 de abril de 2016

Comida do Bem e Comida do Mal

13 de abril de 2016
medodafome
desindustrializar
comidadobem

“Parabéns por ter colocado salada na sua rotina alimentar. Mas peito de peru é a maior porcaria! Estragou a salada” ou “Vontade de comer um chocolate depois do almoço… E almocei tão bem! Vou estragar com uma porcaria?”.

Quem nunca ouviu ou ler a palavra porcaria inserida nesse contexto: alimentos/nutrientes que não são classificados saudáveis. Eu tô cansada de ouvir, e confesso que sigo em constante vigilância par não repetir esse termo. Porque porcaria é comida de porco, e nós somos pessoas, não porcos. É igual o tal do dia ‘lixo’…

Mas não vim aqui pra discutir a etimologia ou o emprego das palavras, isso é uma questão de consciência sobre como tratamos a comida. Eu vim discutir sobre a categorização dos alimentos entre bons ou ruins (ou ‘porcaria’ e ‘saudável’).

Categorizamos tudo: pessoas, objetos e comida. Aprendemos no colégio, bem pequenininhos, a colocar várias palavras numa mesma categoria – e depois a nomeá-las. Categorizar permite organizar o mundo e até nos defender: quando categorizamos algo como ‘venenoso’ ou ‘perigoso’, por exemplo, estamos eliminando ou reduzindo riscos. Atualmente separamos alimentos ou nutrientes em duas categorias: do bem’ ou ‘do mal’, saudáveis ou porcarias.

E porque não é certo categorizar assim? 

comidamp

Olhar o açúcar isoladamente vai torná-lo um vilão, e não é para menos: a população brasileira excede 50% no consumo limite – que é 10% das calorias totais ingeridas. Ou seja: se você tem uma alimentação que totaliza mais ou menos 1800 kcal, 180 kcal podem vir do açúcar (equivalente a 45 gramas diárias). O brasileiro está comendo o dobro de açúcar indicado para manter um bom estado de saúde. E não só o açúcar em forma de doces, mas também o açúcar oculto nos alimentos!

Mas se você tem uma alimentação com uma quantidade controlada de alimentos industrializados, dá preferência as preparações in natura e não é sedentário? Será mesmo que precisa tratar o açúcar como ‘porcaria’? Será que assim você vai  jogar sua saúde no lixo e conseguir uma diabetes por consumir uma porção pequena e dentro dos limites permitidos?

Muita gente chega no consultório muito disposto a melhorar a saúde, e fica procurando qual o vilão causador do excesso de peso. Em 99,9% das vezes o problema não é de um alimento/nutriente, mas sim a alimentação total. Esforços são necessários para emagrecer, e obviamente o EXCESSO de açúcar atrapalha muito… Mas será que dentro de uma dieta equilibrada uma pequena e esperada porção de açúcar é mesmo tão vilã?

O mesmo acontece com as carnes processadas: ano passado a OMS publicou um relatório sobre o consumo de carnes processadas. Esse relatório mostrou que existem estudos suficientes para associar o consumo EXCESSIVO de carne processada ao câncer – principalmente colorretal. Salsichas, bacon, presuntos e peito de peru foram colocados como Joana D’arc na inquisição.

Em alguns lugares você podia até ler: “Carne processada mata tanto quanto cigarro”. Mas isso não deve ser divulgado dessa maneira! Essa afirmação existe pois o IARC (International Agency for Research on Cancer) agrupam substâncias em categorias diferentes, de acordo com o nível de certeza que cada substância está relacionada a incidência do câncer. A categoria que abriga o tabaco também abriga determinadas substâncias encontradas na carne processada, e sim, ambas substâncias podem causar câncer. Mas isso não quer dizer que se você comer um hot dog no final de semana ou uma fatia de peito de peru diariamente vai te colocar no mesmo patamar de saúde e risco de um fumante.

 

O alimento bom ou mau depende do contexto que ele está inserido: uma sobremesa diária ou aquele açúcar no único cafézinho do dia; o bacon do hambúrguer de sábado ou aquela fatia de presunto no café da manhã não matarão mais do que uma dieta baseada em alimentos que na sua totalidade estão nas prateleiras. Conversando outro dia com um médico, ele falou algo muito interessante: ‘entramos no supermercado e só vemos prateleiras e embalagens, o espaço destinado aos alimentos in natura é o menor’. Já perceberam isso também?

Nós nos afastamos de uma alimentação mais natural, leve e equilibrada, mas não acho que temos que virar a Bela Gil e substituir o pão francês por linhaça. Mas um equilíbrio tanto no consumo quanto na categorização dos alimentos é mais que necessário.

baconvida

E existe outro detalhe: a manchete do jornal, serve para você?

A maioria dos relatórios são montados a partir diversos estudos científicos, ou de análises populacionais. No caso do Brasil, a nossa grande maioria não tem acesso aos snacks saudáveis, produtos orgânicos, almoços integrais. Isso tudo porque falta tempo, educação, dinheiro e colaboração necessárias para manter uma alimentação mais natural e equilibrada. Você que está aí na sua alimentação bacana e come um bombom depois do almoço ou um X-bacon no sábado, acha mesmo que esse relatório da OMS serve para você? Que você, um reles ser humano saudável e equilibrado precisa tirar o seu prazer eventual?

Esses relatórios são feitos para as grandes populações. Essas que vemos nos grandes centros comerciais, que tomam de café da manhã um café cheio de açúcar, refri e um salgado frito  T-O-D-O-S O-S D-I-A-S. Que almoça um pedação de carne frita num óleo de procedência duvidosa e a noite faz macarrão instantâneo – vulgo miojo. Ou até para aquelas pessoas que comem salada com grelhado no almoço e no jantar, mas passam o resto do dia comendo montes de barrinhas ou biscoitos ‘integrais’, iogurtes ‘lights’ e ‘suco’ de caixinha – todos cheios de açúcar!

E se servir…

Imagine que você seja desses que vive comendo um monte de frituras, nuggets, salsichas, carnes e etc e num determinado momento você resolve ir ao nutricionista para mudar seus hábitos.  Chegando lá ele faz um planejamento alimentar super legal para você, mas deixa uma fatia de peito de peru pela manhã – já que você disse que gosta, e fica mais gostoso na hora de comer o pão integral .

E imagine que além de ter uma alimentação não tão saudável, você vive comendo barras e barras de chocolate. Até o dia que você resolve mudar o seu comportamento alimentar e a nutricionista ‘deixa’ você comer um docinho depois do almoço.

Será que depois da mudança você precisa mesmo achar que esse ‘açúcarzinho terapeutico’ vai te tornar menos saudável?

Será que aquela única fatia de peito de peru vai te causar um câncer?

NÃAAAAAAAAAAAAAAO!

gorduradobem

Colocar o nutriente ou o alimento em categorias, sem levar em consideração o contexto geral não rola…  Ao passo que não podemos colocar os excessos consumidos como mocinhos (sim, a população está comendo mais em quantidade e menos em qualidade), não podemos também julgar o consumo eventual como causador de todos os males do mundo.

Tem que ter coerência!

Um problema de saúde pública como este que estamos vivendo – obesidade e sobrepeso tomando proporções cada vez maiores – não vai ser resolvido com discursos fit e shots de suco verde. Será resolvido com a aproximação da população ao ato de cozinhar, educação nutricional e mudanças nas indústrias de alimentos (o mais difícil).

O problema de categorização ‘comida do bem e comida do mal’ também não vai ser resolvido com uma festa na floresta regada de aperitivos glúten free. Será resolvido com desmistificação das dietas milagrosas, consciência alimentar dos profissionais de saúde e principalmente, uma separação bem feita entre prevenção e tratamento de saúde e obesidade – não dá pra colocar os dois no mesmo patamar.

Por isso, antes de categorizar um alimento ou nutriente, coloque-o num contexto geral e avalie se o consumo pende para o bem ou pro mal!

Até a próxima!