E precisamos todos rejuvenescer (?)

28 de março de 2017

Conversas de Self Service – Já Que… Jaquei!

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Hashtag Eat Clean

28 de março de 2017
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Li esse texto nas minhas viagens pela internet. Ele é da escritora e editora americana Rosemary Donahue. Tentei fazer uma tradução para vocês, mas quem quiser, pode conferir o texto no http://www.nylon.com/articles/talking-about-food-eating-disorder-recovery-clean-eating-triggering.

Rosemary tem outros textos super interessantes sobre transtorno alimentar, ansiedade e assuntos diversos.

“Eu cresci em uma época estranha da cultura alimentar americana. Durante a primeira parte da minha vida a gordura era o grande inimigo e dietas low fat (mas com alto teor de açúcar) estavam com tudo. Mas de repente algo mudou e a dieta Atkins virou a grande sensação do momento. Eu vi bacon e queijos gordurosos tomarem o lugar de iogurtes e leites desnatados – e pessoas perdendo peso como se seus corpos fossem máquinas cetogênicas. Mas desde quando o próprio fundador da dieta Atkins morreu de problemas cardíacos, as pessoas foram se afastando daquela dieta: e tudo que envolve sucos detox, crudivorismo, dietas gluten-free (mesmo para quem não tem doença celíaca) virou ‘a maneira correta’ de se alimentar – e tivemos que deixar de lado tudo aquilo que em determinado momento aprendemos a comer.

Enquanto crescíamos e assistíamos tudo isso acontecer, eu e meus amigos também escutávamos nossas mães falando sobre alimentação ‘light’ com um senso de orgulho: era essa a maneira de tornar-se magro, e a magreza era o bilhete premiado para a dignidade. E elas não criaram essa relação: a idéia de que magreza é sinônimo de dignidade foi algo transmitido as nossas mães talvez pelas próprias mães delas, e também pelos anúncios publicitários e pela indústria da moda (que vende a magreza como padrão ouro).

“Comer light” se transformou no meme do momento – e outras frases também: “eu sou péssima”- usada após comer um delicioso cookie ou um pedaço extra de pizza; ou ” vou compensar isso mais tarde” depois da sobremesa no final de semana; e por último o meu termo favorito (e enganador): “eat clean”.

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Não é de se surpreender que muitos de nós desenvolvemos transtornos alimentares, e eu estou incluída nisso. Compulsão e purgação se tornaram parte de mim, enquanto as mudanças no cenário de dieta e alimentação se tornaram perigosas de lidar.

A linguagem que demoniza alguns alimentos (ou modo de preparo deles) perpetua os estigmas que temos em relação aos nossos próprios hábitos alimentares e aos nossos próprios corpos. E aí, além de ser muito sedutor tentar cada nova tendência dietética, você também pode decidir se auto-punir quando as coisas saírem do planejado.

É fácil ouvir discursos como o #eatclean e assumir que se nós formos contra as tendências e comermos o que de fato precisamos para nossa recuperação estamos sendo pessoas ruins, imorais ou até mesmo “sujas”- e esta é outra luta que não precisamos enfrentar quando já estamos sofrendo com distúrbios alimentares

Durante meu transtorno alimentar, enquanto eu não conseguia enxergar uma saída, eu aceitei termos como ‘eat clean’ como uma desculpa para evitar determinados alimentos. Eu segui cada novidade alimentar como uma maneira de autorizar minha doença, mas se eu deslizasse e consumisse algo que não fosse #eatclean isso me levava a compulsão, compensação e auto-destruição porque eu me sentia como uma falha humana ambulante (afinal, várias dessas novidades eram ‘tudo ou nada’). A mente de quem tem transtorno alimentar não reage racionalmente, então ora eu me restringia, ora eu comia compulsivamente porque na minha concepção eu já tinha colocado tudo a perder, então eu poderia ‘chutar o balde’ para acabar de uma vez com o estrago.

O mesmo acontecia quando eu me permitia comer algo perto dos meus amigos. Enquanto eles falavam que teriam que ‘compensar tudo na academia’ ou lamentavam o quão ‘loucos’ eles estavam de comer o que eu também comia, eu me sentia automaticamente julgada e começava a pensar como eles – mesmo se antes eu estivesse me sentido bem e confortável para fazer aquela escolha alimentar.

Foram muitos anos para entender que algumas pessoas repetirão esse tipo de frase – e comportamento – independente de qualquer fator, e que magreza e dietas sempre serão partes da nossa cultura. Eu decidi bloquear esse tipo de coisa e não me envolver mais nesse assunto. Mas ainda me incomoda que as pessoas não enxergam o impacto nocivo desse comportamento; e eu sei que cada vez mais cedo as pessoas estão sendo afetadas por esse tipo de linguagem: e é aí que vejo que precisamos de mudanças. E mesmo tendo lidado com isso durante anos e aprendido que eu não preciso me envolver ou concordar, na minha mais recente recaída eu fui arremessada de volta para o transtorno de uma maneira que eu jamais imaginei.

Durante o segundo semestre de 2016, quando o estresse das eleições se juntaram com vários outros problemas pessoais, minha bulimia e minha compulsão alimentar mudaram de formato, e eu me vi com baixíssimo apetite. Eu perdi peso rapidamente porque eu não comia muito e isso me assustou. Quando eu me toquei do que estava acontecendo e vi que a única maneira de melhorar minha saúde era aprendendo a me alimentar melhor, eu notei que meu apetite só aparecia na presença de todas aquelas coisas que eu evitava antes (porque tinha medo do julgamento). Ou seja, meu corpo precisava de sustento mas também de conforto. O antídoto para a nova forma da minha doença eram os alimentos que antes eu fugia e evitava ao máximo.

As vezes os alimentos que pavimentam o caminho para a recuperação dos transtornos são os alimentos que várias pessoas (incluindo profissionais de saúde) demonizam. São as ‘comfort foods': pães, frutas, sobremesas, bolos ou o delicioso copo de leite com achocolatado que você tomava quando criança. Tudo muito fácil de fazer, fácil de comer ou até fácil de comprar – e claro, fácil de digerir. Quando você está simplesmente tentando sobreviver, pode ser incrivelmente difícil reunir forças e preparar algo para comer. Esses alimentos cheios de energia são os alimentos que as pessoas precisam depois de um longo período sem comer nada. E aí, pode ser difícil se reconciliar não só com suas crenças antigas mas também com uma atitude cultural em torno de um certo tipo de alimento. Pode parecer quase impossível assumir que aquele alimento é necessário naquele momento, mas é essencial para a recuperação do transtorno alimentar.bingeeating2

E por isso a maneira de se comunicar é tão importante. É importante, desde cedo, saber falar sobre alimentação (e nossos corpos) perto das crianças, para que elas não cresçam pensando que que as escolhas alimentares delas estão diretamente ligadas aos valores de cada uma. É importante não vincular comida a moralidade ou caráter, porque todos nós faremos diferentes escolhas alimentares uns dos outros, e isso não torna ninguém melhor ou pior. Saúde é algo individual, especialmente para quem está em recuperação, e é algo que precisa ser honrado – não somente depois que o problema existe, mas antes dele começar. Precisamos aprender como falar de comida de uma maneira mais saudável, para que as crianças cresçam com um melhor relacionamento não só com o que alimentamos nosso corpo mas também com os nossos corpos. E acabar com a implicação de que certos alimentos são ‘limpos’ enquanto outros não são, ou que somos ‘péssimos’ quando comemos algo mas ‘ótimos’ quando fazemos outras escolhas. Essa mudança de comunicação já é um bom começo.”

Espero que tenham gostado!

Até a próxima,

Marina