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Transtorno alimentar é ‘coisa de mulher’?

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Quando falamos de transtornos alimentares, pensamos logo no gênero feminino – e em bulimia e anorexia. Mas sabemos também dos subtipos (ou transtornos inespecíficos) tais quais a vigorexia* e a ortorexia*

Porém, os homens também são vítimas de transtornos alimentares. Ao contrário da anorexia ou bulimia em mulheres, que tem como característica o desejo pelo corpo magro, os homens desejam um físico que seja magro (sem gordura) e musculoso. E aí, é só dar uma volta pelas academias para verificar o que muitos tem feito para isso – são garrafinhas e garrafinhas cheias de suplemento.

E claro, as outras ‘ajudinhas’ não tão explícitas.

O que contribui para o uso excessivo desses artifícios é muito mais do que a insatisfação com o próprio corpo: a vontade de um corpo magro somado a baixa auto-estima, conflito de gênero (insegurança a respeito da própria masculinidade) e pressão mididática contribui muito para o uso excessivo de suplementos alimentares e outros.

Segundo o professor Richard Achro, da California School of Professional Psychology, a maneira como o corpo dos homens está sendo objetificada pela mídia está se assemelhando rapidamente ao que foi feito com o corpo da mulher durante várias décadas décadas.

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O transtorno alimentar em homens é um problema muitas vezes subdiagnosticado ou ignorado. Segundo o professor, o consumo excessivo de suplementos alimentares vinculados a quantidade também excessiva de treino pode apontar para um tipo de transtorno alimentar.

Transtorno é coisa de mulher?

Estamos no século XXI e deveríamos lidar com toda a diversidade sexual e características individuais da maneira mais natural possível. Mas ainda assim sabemos que os homens muitas vezes são criados para não serem emocionais: são encorajados a competir, a serem muito mais racionais e muitos ainda acreditam que transtornos alimentares (e outros problemas psiquiátricos) são fraquezas ou frescuras.

Mas o homem nem sempre é esse sujeito estereotipado. Homens (assim como mulheres) tem sentimentos, amarguras, ansiedades e outros sentimentos. Então, muitas vezes a preocupação demasiada com o corpo é a fuga de todos os conflitos – ou a busca por falsas soluções. Por isso o transtorno pode ser visto também como um sintoma ou consequência de depressão ou ansiedade.

Cuidar do corpo de uma maneira tão rígida requer muita disciplina e sobretudo tempo. E é nesse tempo ocupado por tanta academia e suplementação que o homem deixa de lidar com tantas questões.

“O uso excessivo de suplementos é muito mais que uma questão com corpo. Tem relação também com questões muito mais profundas do homem” – Richard Achiro

Isso não quer dizer que quem toma whey protein ou gosta de praticar atividades físicas tem distúrbios alimentares. É justamente a rigidez e o excesso do uso que sinalizam um alerta. Se o consumo interfere de alguma maneira as relações pessoais, o bem estar emocional, a produtividade no trabalho e a saúde física… temos um problema.

Mas porque tomamos tanto suplemento?

É só perceber a quantidade de lojas de suplementos existentes. O mercado de suplementos alimentares cresce 25% ao ano – e em 2014 a movimentação ultrapassou U$200 bilhões (em 2007 foi U$59,8 bilhões). No Brasil o número de abertura de novas empresas de venda de suplementos passou de 323 em 2009 para 1,1 mil em 2014.

E claro, pra vender um produto desse, há todo tipo de propaganda envolvida – inclusive estudos encomendados pelas empresas. Quem nunca leu um artigo que comprovava um benefício ‘x’ de um suplemento ‘y’.

Mas a grande verdade é que a maioria das pessoas que vemos nas academias consumindo uma quantidade excessiva de suplementos não é o público que de fato precisa destes. Alguns suplementos tem função importante para atletas ou praticantes de atividade física de alto rendimento, e isso é bem diferente de uma pessoa que vai a academia fazer algunas horas de exercício.

Da mesma forma que a preocupação excessiva com a estética e o peso deve ser observada com cuidado nas mulheres, os homens também podem ser alvo de transtornos alimentares.

Até a próxima!

Marina

Ortorexia: Distúrbio do comportamento alimentar caracterizado por uma obsessão para comer saudável. As pessoas com este quadro apresentam uma preocupação excessiva com  a qualidade  da alimentação limitando a variedade; e acabam excluindo certos grupos como carnes, laticínios, gorduras, carboidratos sem fazer a substituição adequada podendo levar a quadros de carências nutricionais ou a um quadro completo de distúrbio da conduta alimentar.

Vigorexia: é um tipo de transtorno em que o indivíduo potencializa defeitos estéticos que possua (ou imagine que possua). Esse defeito chega a torturá-lo e ele passa a se sentir aparentemente repugnante. Ocorre quando as pessoas realizam exercícios físicos de forma continua e extenuante, e excede a capacidade de recuperação. Atinge especialmente homens e o objetivo obsessivo é a hipertrofia máxima com mínimo de gordura corporal.

Para ler mais:

http://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/10640266.2012.715512

http://www.reuters.com/article/us-health-supplements-men-idUSKCN0QB2B320150806