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Esses dias eu li um texto MUITO bom, enviado por uma querida amiga. O texto é a tradução de uma matéria do portal VICE UK. É um texto grande, mas que vale a leitura. Para vocês saberem do que se trata, ele começa com o seguinte parágrafo:

“Alguns anos atrás descobri o bem-estar. Eu sentia meu corpo como um fardo, e a comida que eu ingeria não parecia me energizar, apenas entorpecia minhas extremidades, me deixando desfocada e lenta. Então fiz uma mudança. Me livrei das barras de chocolate, refeições de micro-ondas e bolos. Li sobre dietas baseadas em vegetais e parei de comer carne, peixe, laticínios, ovos ou qualquer coisa muito processada. Ouvi histórias sobre leite de soja, hormônio e agrotóxicos, então tentei cortá-los da dieta também. Todo jantar, eu me sentava à mesa e assistia os outros se curvando sobre suas refeições, contente em saber que se eu não podia comer, eu não ia comer. Eu pensava em comida o dia inteiro; acordava no meio da noite pensando em rolinhos de salsicha, pizza, frango assado com pele crocante. Amigos e inimigos da alimentação viviam em dois campos separados da minha mente, e eu via problema em cada mordida. Me tornei nervosa e magricela. Eu tinha encontrado o bem-estar. Mas não estava bem.”

Talvez muitas pessoas se identifiquem (parcial ou totalmente) com o que ela disse. Acredito que muita gente já se encontrou com dúvidas sobre poder ou não comer comer determinado alimento, e essas dúvidas geralmente são movidas pela saúde ou pela vontade de perder peso.

O fato é que essa preocupação extrema pode ser um transtorno alimentar, a ortorexia nervosa. Esse transtorno ainda não está relacionado no Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-V, a última versão), mas já tem seu termo amplamente utilizado e discutido pelos profissionais da saúde.

A ortorexia foi descrita na década de 90 como uma fixação pela saúde alimentar caracterizada por uma obsessão doentia com o alimento biologicamente puro, acarretando restrições alimentares significativas. Trata-se de indivíduos com escolhas alimentares acompanhadas de uma preocupação exagerada com a qualidade dos alimentos, a pureza da dieta (livre de herbicidas, pesticidas e outras substâncias artificiais) e o uso exclusivo de alimentos politicamente corretos e saudáveis.

Observa-se uma preocupação em excluir determinados grupos de alimentos, além da obsessão por comer de maneira saudável. Esses fatores podem, inclusive, afetar a vida social de quem sofre desse transtorno.

Apesar de não ter um diagnóstico formado, a diferença notada da ortorexia para outros transtornos (anorexia e bulimia nervosas) é que na ortorexia o indivíduo muitas vezes dá um foco maior para a qualidade e não para a quantidade ingerida. Além disso, a ortorexia pode não vir acompanhada de uma auto-avaliação imagem corporal. Anorexia e Bulimia são transtornos que tem como fortes características a preocupação com a imagem corporal e quantidade de alimentos ingeridos.

anorexiaebulimiaSomente um profissional pode fazer um diagnóstico. Se você desconfia que tem algum transtorno, procure o especialista!

Mas numa época onde se fala tanto em saúde, perigos da obesidade e bem-estar, faço algumas considerações.

Acredito que o conceito de saúde se perdeu há muito tempo, e continua cada vez mais confuso. Saúde se tornou um conceito binário, onde os alimentos só podem ser divididos em bons ou ruins. Comeu um sanduíche? Ruim. Péssimo. Só come alimentos naturais? Saudável, maravilhoso, parabéns. A minha missão como nutricionista é, obviamente, estimular ao máximo o consumo de alimentos naturais, evitando o consumo de produtos industrializados. Afinal, a gente sabe que estes em excesso podem trazer grandes problemas para a saúde. Mas hoje em dia, para ser saudável, não basta focar nos alimentos mais naturais: você precisa também excluir os lácteos, o glúten, zerar o sódio e nem pensar em açúcar (nem aquele brigadeirinho da festa da sua prima de 3 anos). Pão de queijo? Só se for de mandioquinha e sem queijo. Bombom? Só se for de alfarroba. Leite é um crime: ou você gasta seu dinheiro em um leite vegetal de 12 reais, ou esqueça a saúde.

Fazendoe exclusões desse tipo a gente acaba perdendo muitos nutrientes. Fazer uma alimentação 100% natural demanda tempo e dinheiro – coisas cada vez mais escassas, principalmente no país que vivemos.

E é justamente falando sobre o nosso país que toco outro ponto: a informação está indo em desencontro com o nosso povo. Sabemos que grande parte da população está obesa ou acima do peso, mas esquecemos que essa mesma parcela tem um estilo de vida muito diferente de quem pode encher o carrinho no supermercado. A maior parte das famílias obesas são sustentadas por pouca renda e muito trabalho, e também por isso acabam lançando mão dos alimentos industrializados afim de tornar a vida mais rápida, prática – e barata.

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Essa população não precisa tirar o glúten da dieta para emagrecer, e muito menos a lactose. Muito pelo contrário: essa população deve ser influenciada a tomar leite ao invés de suco industrializado, a comer mais grãos integrais ao invés de falsos cereais cheios de açúcar e a comer mais ‘carboidratos’ in natura no lugar de macarrões instantâneos.

A minoria privilegiada, que tem acesso a uma alimentação de qualidade, não precisa tirar o glúten da dieta. Precisa praticar mais atividades físicas, observar mais o próprio corpo, comer mais produtos naturais e reduzir ao máximo o consumo de industrializados. Mas principalmente perceber como outros fatores influenciam as nossas escolhas alimentares e sobretudo, parar de procurar dietas e produtos milagrosos. Procurar um nutricionista que esteja mais disposto a falar sobre alimentação do que um que esteja preocupado em te passar produtos igual o que a blogueira posta nas redes sociais. Ao invés de investir o dinheiro gasto em um monte de produtos embalados e decorados com várias promessas ‘fat-free’ ‘glúten-free’ e ‘lac-free’, deve-se gastar em produtos orgânicos, grãos e cereais integrais ou até num tênis legal para você fazer atividades físicas regulares.

Antes que você se perca em um transtorno alimentar, reveja sua idéia de saúde e bem-estar. Isso vai além do seu corpo, seus parâmetros laboratoriais, seu percentual de gordura e sua preocupação em mostrar pro mundo como você é natureba. Saúde é um estado de sanidade mental também.

Beijos!

Marina