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Matérias de Capa: IstoÉ e Super Interessante – Glúten!

2 de julho de 2014
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Duas revistas tiveram como capa o Glúten: a IstoÉ e a Super interessante. Apesar de já ter escrito sobre isso (aqui), achei interessante falar sobre a reportagem aqui, discutindo alguns pontos colocados.

As duas reportagens citam os pontos ‘positivos’ e ‘negativos’ da alimentação sem glúten.

glutenfree

 

As opiniões de quem é a favor de retirar o glúten:

Na Istoé: “A troca elimina eventuais desconfortos abdominais provocados pela substância ‘o glúten é uma proteína grande e de difícil digestão. Ele altera a bioquímica do intestino, pode levar a diarréia e constipação e prejudica a absorção de nutriente”. 

Não existem evidências científicas que comprovem a melhora de determinados sintomas da retirada de glúten para pessoas não sensíveis a ele. No ponto de vista clínico podemos até ver alguns pacientes que se dizem ‘menos inchados’ sob o consumo livre de glúten. E aí eu darei minha opinião: o responsável não é o glúten, mas sim a redução do consumo de carboidratos refinados em geral.

Na Super Interessante: “Desde a década de 1950, o número de pessoas com alergia a glúten quadruplicou no mundo. E o número de adeptos não para de crescer. Só nos EUA, 28,5% das pessoas dizem que querem reduzir ou eliminar essa substância da dieta, e o mercado de comida sem glúten já movimenta mais de U$10 bilhões por ano”

O diagnóstico aumentou, ou seja: se antes não diagnosticávamos a doença celíaca (DC) com tanta facilidade, agora é possível. Assim sendo, vemos mais casos de alergia/DC. Claro que o número também aumentou também por outros fatores (que citarei abaixo), mas a melhora dos diagnósticos é um fator a ser considerado. E claro, os ‘alérgicos não celíacos’ tem crescido tanto porque, com uma economia que vende muitos produtos específicos, é interessante inflamar o discurso de que glúten faz mal!

Na IstoÉ “(O glúten) Pode levar a diarréia e constipação, além de prejudicar a absorção de nutrientes em pessoas que tem doença celíaca.”

De fato o glúten pode levar a vários problemas intestinais, que vão além de diarréia e constipação, EM QUEM TEM A DOENÇA CELÍACA (DC). O que acontece muuuuitas vezes é que as pessoas se submetem a modificação de hábitos gerais: passam a comer mais frutas, legumes, a praticar atividade física e tiram o glúten (ou a lactose, etc). É evidente que a perda de peso fica facilitada, além de ma melhora no funcionamento intestinal. O importante é perceber que isso não é causa do glúten, mas sim de um contexto geral!

Na Super Interessante: “O ciclo de vida da planta também foi modificado. O problema está nas modificações feitas por agricultores” – falando sobre o trigo

Mas a própria revista já explica

 “Essa teoria, de que o melhoramento genético do trigo possa ter criado um monstro, é apenas uma teoria – e bastante questionada pelos pesquisadores da área. Isso porque os cruzamentos genéticos ocorrem há milênios e, em alguns casos, acontecem de forma natural, sem a ação do homem. Não há comprovação científica de que esse processo tenha modificado a forma como o trigo é digerido”.

Então a IstoÉ e a Super Interessante escrevem:

IstoÉ “Pesquisas provam que o nível de inflamação do organismo – maior nos obesos e se eleva por reação ao glúten e a lactose – aumenta a predisposição de problemas cardiovasculares e de doenças autoimunes, entre elas a diabetes tipo 1″. 

Super Interessante  ” O trigo pode estar nos fazendo mal e ser o grande responsável pela epidemia de obesidade no mundo”

A obesidade é uma doença inflamatória e multifatorial. E mesmo se o glúten tiver alguma relação com a obesidade, atenção: OBESIDADE é completamente diferente de SOBREPESO ou ‘PNEUZINHOS’. O que eu vejo são pessoas enlouquecidas para a retirada do glúten com objetivo pequeno de perda de peso. No caso dos obesos, fatores mais importantes devem ser observados, antes do consumo de glúten.

Isto É ‘Remover um fardo do metabolismo para que ele possa trabalhar mais rapidamente’. – a respeito de retirar o glúten.

Glúten não é fardo, e metabolismo não é um carro que anda mais rápido quando você retira um peso muito grande dele. PELOAMOR. Quer ‘acelerar’ seu metabolismo? Se alimente de maneira saudável, pratique atividades físicas, mantenha um nível legal de massa magra, beba água, durma bem. Você não é uma carreta, seu metabolismo não é uma carroceria e o glúten não é um saco de milho!

E a Super Interessante rebate:

Super Interessante: “De toda forma, é melhor ter uma dieta balanceada do que cortar apenas um ingrediente e esperar milagres”

Acho que não preciso nem comentar …

IstoÉ: “Sensibilidade ao glúten é uma condição mais recentemente identificada que imita muitos dos sintomas de doença celíaca, mas é menos grave e não causa dano intestinal. Temos muito a aprender sobre ela”.

Sensibilidade ao glúten é uma condição ainda não identificada. Já escrevi sobre isso aqui nesse post. Ele fala justamente sobre o que a revista descreve:

IstoÉ:Peter Gibson, da Monash University mostra que o desconforto abdominal pode ser causado devido a carboidratos, e não ao glúten. 

“Ironicamente, reduzir a exposição ao glúten pode aumentar seus efeitos ruins, principalmente em crianças. Na década de 1980, ele virou vilão da dieta infantil na Suécia. Entre 1984 e 1996, os médicos do país recomendaram que as mães retardassem a exposição dos bebês a papinhas que contivessem a proteína. O resultado foi uma explosão de doença celíaca, que aumentou 300% no período…. Hoje os médicos suecos mudaram de opinião, e recomendam que bebês ingiram pequenas quantidades de alimentos com glúten já durante o período de amamentação.”

Num contexto geral, achei uma boas reportagens: mostraram os dois lados da moeda. Algumas pessoas vão continuar acreditando que a retirada do glúten é realmente milagrosa – mesmo sem entender muito; Alguns profissionais que utilizam esse discurso como subterfúgio para atrair mais clientes vão manter essa linha; profissionais que tem como ambição proporcionar o melhor para o seu paciente terão mais material ‘leigo’ par apoiar – independente de modas ou tendências e pessoas curiosas que querem saber de onde vem todo esse interesse vão ler e entender os dois lados da moeda.

Além disso, a reportagem mostra a movimentação financeira que a indústria do glúten movimente, também algo super legal: assim podemos entender porque existe tanto interesse em sustentar esse discurso inflamado e ainda com muito estudo pela frente.

Utilizando a frase final da Super Interessante, eu deixo vocês com a reflexão “Acreditar que uma única substância possa estar na raiz de todos os problemas alimentares modernos pode ser uma aposta perigosa. Até porque você não se alimenta de um único tipo de comida, Além de pouco saudável, seria bem enjoativo’

A ciência pode estar errada e um dia provar que o glúten é prejudicial até para não intolerantes – não é impossível, mas realmente acho difícil. Enquanto isso, se você não é super obeso, não tem sinais ou sintomas, desencane de retirar o glúten!

Espero que tenham gostado!

Beijos,

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Obs: E por favor, não citem o livro ‘barriga de trigo’ como referência científica!