Dilemas do número 2

15 de setembro de 2014

Receita: salada gravatinha

15 de setembro de 2014

A salada do vizinho é sempre mais verde

15 de setembro de 2014
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Muita gente chega ao consultório e fala: ‘Nossa, eu tenho uma amiga que é super saudável. Só come salada. Você precisa ver!”.  Ou: “nunca vejo fulana de tal comendo doces, ela é suuuuper regrada, não sai da linha nenhum momento”. Ou seja: o prato do vizinho é sempre mais verde.

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Estamos sempre insatisfeitos com váááárias coisas na nossa vida, e muita gente nunca está feliz com a alimentação. Sempre queremos acompanhar a última receita postada, o novo produto do supermercado, e por aí vai. E quando não conseguimos acompanhar esse turbilhão de informações, é uma frustração total.

Só que nem sempre o que é colocado como mega saudável de fato é a salvação. Acontece muito com os suplementos alimentares: Outro dia um paciente me falou que se sente um E.T sem tomar suplemento na academia, que queria voltar a tomar por isso, apesar de já ter provado e não achar que resolva muita coisa para ele. Um dia uma menina me falou que adora o prato ‘x’ de um restaurante, mas só come quando vai com a mãe, já que as amigas, ‘suuuuper saudáveis’ só comem salada… esses são alguns exemplos do dia a dia.

Quem nunca se pegou na frente da tela do celular, vendo todos esses pratos ‘fitness’ maravilhosos de mulheres super saradas, praticantes de atividade física, e pensando: ‘Nossa, jamais vou ser sarada/saudável’? Acho que todo mundo já passou por isso.  E já vi muita gente desistindo de seguir em frente com uma mudança de hábitos por causa desses exemplos. Afinal, não é todo mundo que tem o mesmo objetivo, estilo de vida, e etc.

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Algumas pessoas tem facilidade em aderir a uma alimentação ‘saudável’, gostam muito de atividade física, tem uma genética que colabora e não usam a comida como válvula de escape para vários problemas. Outras pessoas tem mais dificuldade em fazer escolhas mais coerentes, são mais ansiosas, e provavelmente não se adaptariam a um estilo de vida tãoooo regrado: mas mesmo assim insistem em querer copiar o comportamento do próximo (ou pior: comparar-se).

Se você quer melhorar seu estilo de vida, em qualquer aspecto, primeiro deve ouvir SEU corpo.

Vou dar dois exemplos pessoais: um totalmente aleatório, e outro de saúde.

Eu tenho um déficit de atenção que as vezes nem eu acredito. Na época da escola se passasse um mosquito na minha frente eu perdia toda a minha capacidade de atenção para observar a trajetória dele. ‘Sofri’ demais com isso, porque eram hooooras pra conseguir ler uma página de um livro, imaginem um capítulo para a prova? Até hoje sou assim, mas aprendi a lidar com isso. E só aprendi depois que me conheci, que me observei. Comecei a perceber que eu não posso me cobrar em ficar 8 horas consecutivas estudando sobre um mesmo assunto, assim como meu pai faz: eu preciso estudar um pouco, e quando começo a me distrair, me dou alguns minutos de descanso. Depois volto. Eu jamais terei a concentração que meu pai tem, ele é de um jeito, eu sou de outro. E não é porque ele consegue resolver o trabalho dele focando horas a fio que comigo tem que ser igual! Meu rendimento é muito melhor quando assumo etapas!

Depois que descobri isso, me tornei uma pessoa MUITO mais produtiva (muito mesmo gente, não dá nem pra explicar). Antes ficava muito frustrada porque demorava dias para estudar ou resolver coisas tão pequenas, porque me forçava a ficar igual uma louca estudando sem nenhuma interrupção, justamente como meu pai faz.

Mas eu não sou meu pai. Então criei maneiras melhores para MIM. E ufa, cada dia melhoro mais!

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A mesma coisa acontece com atividade física. Eu sou muuuuito preguiçosa (!!!). Se não fizer atividade física logo de manhã, já era. Morro de preguiça de chegar em casa, trocar de roupa e ir malhar. Ou seja: eu me cobro para ir logo de manhã, eu descobri que eu só vou mesmo se for ao acordar. Ou seja: eu me organizo para tal! Tudo isso porque eu escuto o meu corpo. Minha mãe faz atividade física TODOS OS DIAS HÁ 29 ANOS (como ela mesma faz questão de refutar sempre). Eu me cobrava demais para ser igual ela. Mas cá pra nós, ela tem um pique de chorar, e gosta de ir a academia no final da tarde. Eu invento qualquer desculpinha pra fugir da academia, e preciso ir de manhã. Somos diferentes. Precisamos de métodos diferentes.

Trabalhar sabendo como nosso corpo se comporta é a maior saída. E essas histórias aí em cima se enquadram com a alimentação. Decidimos começar uma dieta, revolucionamos tudo: adeus os alimentos que gostamos e julgamos não saudáveis porque o nosso exemplo de saúde não come, e damos boas vindas a refeições que podem até saciar fisiologicamente, mas não fazem nem cócegas na nossa saciedade psicológica.

Afinal, quem foi que disse que para ser saudável você tem que viver comendo igual sua colega que é super regrada, enquanto você não tem o mesmo corpo dela, nem a mesma rotina e muito menos os mesmos objetivos?

Confesso que não existe milagre, e as chances de emagrecer consumindo um monte de comida processada (ou todas aquelas julgadas ‘não saudáveis de verdade’) é muito difícil. Mas nem por isso você precisa ser o extremo. Concessões devem ser feitas, mas abrir mão é diferente de radicalizar. Adora pão francês? Ok! Mas porque não comer uma unidade (ou 1/2) ao invés de 3?  P

Você adora arroz, come brócolis numa boa e não gosta de alface: porque ao invés de excluir o arroz e encher o prato de alface para logo depois estar com fome e devorar um chocolate, você não diminui um pouco o arroz, aproveita para comer o brócolis e esquece a alface?

Eu não gosto de batata doce, e como super pouco frango. Mas só porque está todo mundo fixado em preparar tuppware até para a ponte aérea eu tenho que fazer igual? NÃOOOO!

BEYOU

Por isso, procure sempre um profissional de saúde sério, que respeita sua individualidade, rotina, preferências e etc. E vá de coração aberto, para escutar o que ele tem a dizer sobre sua alimentação. Não crie falsas expectativas e não queira chegar ao topo da escada sem subir os primeiros degraus. Existem pessoas que só funcionam quando há muita limitação e regras, outras precisam de mais maleabilidade e calma. Você deve saber qual é seu comportamento, e o profissional também tem que avaliar isso.

A maioria das dietas não funciona justamente porque queremos colocar o carro na frente dos bois. Acho lindo quem quer ser mais saudável, mudar vários hábitos alimentares ruins. Mas não dá para pensarmos que, de uma hora para outra, nossa vida vai mudar como um passe de mágica. Cada passo de uma vez!

E claro, não queira ser o outro! Seja o melhor de si – isso eu já cansei de falar por aqui. Realmente, esse é o verdadeiro caminho para a felicidade. Nos frustramos demais por tentar acompanhar ou ser algo que a gente não deseja.

Quando perdemos muito tempo pensando no que o outro tem (ou é), é porque não conseguimos a felicidade com o que temos ou somos.

E o caminho de quaisquer mudanças, principalmente pessoais, começa olhando para dentro antes de olhar para o lado!

Pensem nisso, e uma boa semana!

Beijos!