Contando calorias: drinks!

8 de dezembro de 2014

Sessão Verão: Picolé

8 de dezembro de 2014

O mito do detox

8 de dezembro de 2014
empty image
empty image

Semana passada várias pessoas compartilharam esse texto nas redes sociais, e eu recebi de vários amigos e amigas. Achei o texto fenomenal! Sabe aquele tipo de texto que você queria ter escrito? Então… Como não fui eu quem escreveu, resolvi colocar aqui no blog com os meus comentários sobre o texto.

theguardianpepino

E ele começa um parágrafo com as seguintes frases:

The idea that you can wash away your calorific sins is the perfect antidote to our fast-food lifestyles and alcohol-lubricated social lives … Detoxing is a scam. It’s a pseudo-medical concept designed to sell you things. “Let’s be clear, there are two types of detox: one is respectable and the other isn’t. The respectable one, is the medical treatment of people with life-threatening drug addictions. The other is the word being hijacked by entrepreneurs, quacks and charlatans to sell a bogus treatment that allegedly detoxifies your body of toxins you’re supposed to have accumulated.”

A idéia de que você poder mandar embora seus pecados calóricos é o antídoto perfeito para nosso estilo fast-food de se alimentar e nossa vida social regada a álcool. O detox é uma farsa, um conceito pseudo médico desenhado para vender. Existem dois tipos de detox: o respeitável e o não respeitável. O respeitável diz respeito ao tratamento médico de pessoas toxico-dependentes. O detox não respeitável é aquele cujo uso da palavra tem sido usada por empresários, curandeiros e charlatões, afim de vender um falso tratamento que alega detoxificar seu corpo das toxinas que você supostamente acumula.

O detox é uma idéia completamente equivocada, uma maneira de nos livrar da culpa e dos excessos que cometemos no dia a dia. A verdadeira ‘alimentação limpa’ é aquela equilibrada, e não aquela que tenta compensar um desequilíbrio. Bebeu demais ontem? Acabou se excedendo na comida? Não vai ser um suco que vai te livrar dos excessos. Porém, continuamos em busca de soluções rápidas, milagrosas e populares. E para vender, nada melhor que o detox: nome forte, apelo de comida saudável (frutas e verduras), prático e está por todos os lugares.

If toxins did build up in a way your body couldn’t excrete, you’d likely be dead or in need of serious medical intervention.

Se o seu corpo é incapaz de excretar toxinas, você provavelmente está morto ou necessitando tratamento médico urgente.

E é a mais pura verdade. Como ele coloca em grande parte do texto, nós temos rins, fígados e outros mecanismos para excluir qualquer tipo de toxina que talvez pudéssemos ingerir – Toxina é qualquer substância de origem biológica que provoca danos à saúde de um ser vivo – A gordura da pizza de domingo, o sal da pipoca do cinema e o álcool do drink de sexta feira são substâncias biológicas que só provocam danos a saúde de um ser vivo sob grandes excessos. E quando eu digo grandes excessos, é o consumo crônico, e não festas de fim de ano ou happy hour dos amigos. Ainda assim, se o corpo não consegue se livrar do que faz mal, ele aponta sintomas sérios que são tratados com acompanhamento sério – e não com sopas e sucos mágicos.

You can go on a seven-day detox diet and you’ll probably lose weight, but that’s nothing to do with toxins, it’s because you would have starved yourself for a week.

Você pode seguir uma dieta detox por 7 dias e provavelmente você irá perder peso, mas isso não tem nada a ver com toxinas. É porque você praticamente passou fome por uma semana.

A matemática é clara: se comemos menos e gastamos mais, perdemos peso. Claro que não é tão simples assim, porque se alimentar envolve diversos fatores e cada pessoa tem um metabolismo, rotina, ritmo de vida e etc… Mas obviamente se você troca o seu pão com manteiga e suco, arroz feijão e carne, e o lanche da noite (mais as frutas e bolachinhas do dia a dia) por uma semana a base de sopas e sucos, você está gerando um déficit calórico – o que vai gerar o emagrecimento (não sustentável, diga-se de passagem).

toxinastheguardian

… surely, a detox from alcohol is a good thing? “It’s definitely good to have non-alcohol days as part of your lifestyle. It’ll probably give you a chance to reassess your drinking habits if you’re drinking too much. But the idea that your liver somehow needs to be ‘cleansed’ is ridiculous”

O detox do álcool é algo positivo? Definitivamente é bom ter dias sem bebidas alcóolicas como parte do seu estilo de vida. Isso te dá a chance de reavaliar seus hábitos, caso esteja bebendo demais. Mas a idéia de que nosso fígado necessita algo específico para ser limpo é ridículo.

E então o autor ainda descreve como o álcool é eliminado do nosso corpo (o que qualquer pessoa que teve algumas aulas obrigatórias de bioquímica na faculdade sabe): o álcool é convertido em acetaldeído (essa sim, substância tóxica) que imediatamente é convertida em dióxido de carbono e água, para que o copo possa eliminar. Ele ainda completa “beber muito pode sobrecarregar as enzimas responsáveis por esse processo, e levar a um acúmulo indesejado de acetaldeído – assim levando a problemas hepáticos sérios”. E ainda assim, esse consumo deve ser excessivo e crônico. O consumo moderado não é capaz de prejudicar nosso fígado, muito menos de gerar toxinas que precisam de alimentos específicos para efetivar sua eliminação.

 “Most people think that you should restrict or pay particular attention to certain food groups, but this is totally not the case,” she says. “The ultimate lifestyle ‘detox’ is not smoking, exercising and enjoying a healthy balanced diet like the Mediterranean diet.”

A maioria das pessoas pensa que devemos dar atenção para certos grupos alimentares (as ‘superfoods’), mas esse não é o caso. Um estilo de vida verdadeiramente ‘detox’ consiste em não fumar, praticar atividades físicas e ter uma alimentação equilibrada – como a dieta mediterrânea.

Quem tem alergias, intolerâncias ou simplesmente não gosta de determinado alimento, acaba por excluí-lo. Porém a regra para quem não está nesses grupos é: seja ativo (e isso não quer dizer morrer na academia por horas a fio, mas ser bem menos sedentário do que estamos acostumados) e se alimente de maneira equilibrada. O autor cita a dieta mediterrânea, que é uma personificação da alimentação ideal: frutas, verduras, peixes, aves, grãos integrais, queijos, iogurtes, ovos, carne vermelha e até álcool, tudo nas devidas proporções. Se você tem um estilo de vida equilibrado e acabou indo ao fast food (ou ao barzinho) no final de semana, não se preocupe em fazer uma ‘dieta detox’.

Many of our consumer decisions, he adds, are made in ignorance and supposition, which is rarely challenged or informed. So if people see somebody with apparently the right credentials, they think they’re listening to a respectable medic and trust their advice.”

Várias das opções de consumo são feitas na ignorância e suposição, e realmente são desafiadas. Se o consumidor vê alguém que aparenta ter as credenciais certas, elas pensam estar ouvindo  médicos respeitáveis, e acabam por acreditar nesses conselhos.

Muitas pessoas me perguntam porque alguns profissionais de saúde (médicos, nutricionistas, e outras especialidades – ou não) continuam vendendo idéias do tipo. A resposta é fácil: se tem gente querendo comprar, tem gente querendo vender. Existe demanda, existe oferta.

E sim, váááários passam por cima da ética profissional para ganhar mais clientes, mais dinheiro e mais sucesso. Muitos entram nesse caminho de maneira consciente, ou seja: querem embarcar no mundo dos negócios com objetivo central de vender – o que torna a prática profissional ao redor da venda somente um teatro.

lucrar

Outras pessoas acabam se enveredando para esses ares por insegurança ou preguiça. A clientela chega sedenta por uma solução milagrosa, e nada deixa esses clientes mais felizes do que dar o que eles querem – e não o que eles precisam. Mas existem outras maneiras de auxiliar o problema de quem quer emagrecer ou melhorar a alimentação: estudar muito e sobretudo explicar o que realmente funciona ou não funciona. Dá trabalho? Demais. As pessoas criam expectativas a respeito de tratamentos como o detox, e mostrar que o caminho não é por aí pode ser frustrante e cansativo… E muitos profissionais tem preguiça e é tomado pela insegurança de dizer ‘não, não é assim, vou te explicar como funciona’. E aí nada mais simples do que dar o que todo mundo está fazendo, ser visto como ‘engajado’ e entrar numa viagem que muitas vezes não tem volta.

Eu, particularmente, prefiro gastar minha energia vendendo a mensagem do equilíbrio e do consumo consciente, do que utilizar de técnicas nada sinceras para levar cada pessoa ao seu objetivo.

Por isso, bato palmas para essa reportagem, e sugiro que todo mundo pense um pouco sobre essa fuga da responsabilidade de cuidar da alimentação, que é só nossa, e não de um tratamento milagroso!

Beijos, uma boa semana!

Na íntegra: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2014/dec/05/detox-myth-health-diet-science-ignorance