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15 de fevereiro de 2016

Dietas fáceis

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Ondas gravitacionais e gordura

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Quando você era mais novo, não podia comer ovo todo dia. Até que uma bela tarde, passando pela banca de jornal, viu uma capa de revista falando: COMA OVO.

Afinal, eu como ou não como ovo? E que história é essa de que gordura já não é tão ruim assim? Porque ela ficou demonizada, e porque várias coisas são boas em um momento, e ruins em outros?

Michael Pollan explicou no seu livro “Em defesa da comida” como a demonização da gordura começou:

A partir da década de 1950 difundiu-se cada vez mais nos meios científicos a opinião de que o consumo de gordura e colesterol alimentar, oriundos em grande parte da carne e dos laticínios, era responsável pelo aumento da ocorrência das doenças do coração no século XX. A ‘hipótese lipídica’, como foi chamada, já havia sido adotada pela associação Americana do Coração, que em 1961 passara a recomendar uma ‘dieta prudente’ pobre em gorduras saturadas e colesterol oriundos de produtos de origem animal. Em 1977 a comissão publicou um conjunto de diretrizes dietéticas diretas, convocando os americanos a cortar o consumo de carne vermelha e laticínios. Após uma explosão de críticas emanadas principalmente das indústrias de carne e de laticínios, a comissão foi obrigada a reescrever as recomendações: a comissão então aconselhara a escolher carnes, aves e peixes que reduzissem o consumo de gorduras saturadas.

Obviamente o mercado pegou carona nessas recomendações e a partir daí surgiram centenas de produtos ‘fat free’ ou ‘sem gordura’ e até ‘livre de gordura saturada’. Nesse momento as margarinas tomaram conta das casas: em tese, já que são feitas de gordura vegetal, não tem colesterol e não aumentam esse índice no corpo humano.

Porém não precisamos entender tanto de epidemiologia para ver que alguns cientistas do século 50 estavam conduzindo mal seus estudos: o mundo engordou mesmo com a limitação de gordura na dieta. Não adiantou parar de comer ovo, manteiga, gordura da carne, iogurte natural… a obesidade EXPLODIU no mundo, e consequentemente as doenças cardiovasculares vieram atrás. Segundo a OMS a obesidade praticamente dobrou nos últimos 30 anos.

Hoje inclusive sabe-se que a gordura trans (ou hidrogenada, aquela encontrada na margarina) faz muito mais mal do que a gordura saturada (quando olhadas isoladamente).

É até perigoso escrever uma frase dessa aqui, uma vez que as pessoas interpretam a maioria das informações ao pé da letra. É como se eu escrevesse: comam manteiga a vontade.Não estou dizendo nada disso, ok?

E como tudo mudou? Porque agora o nutricionista manda comer ovo e deixar a margarina de lado? Porque a TIME publicou uma reportagem em 2014 com essa capa?

"COMA MANTEIGA"

“COMA MANTEIGA”

Corta pra 1905, quando Einstein elaborou a teoria da Relatividade Geral.

Essa teoria afirmava que a gravidade é uma força de atração que age distorcendo o espaço e o tempo. Quando dois objetos muito maciços interagem (neles a força da gravidade é muito grande), eles produzem ondas que se propagam no espaço – as ditas ondas gravitacionais.

Einstein elaborou essa TEORIA em 1905. Uma teoria fundamentada com base em pouquíssimos recursos – se comparados com hoje em dia. Depois de 111 anos vários cientistas conseguiram ver as ditas ondas gravitacionais.

Volta pra 2016, aqui nesse post…

O NOME DISSO É CIÊNCIA

A teoria na prática, a ‘descoberta’ de algo teorizado anteriormente ou até a modificação de antigas comprovações – independente do tempo que isso leve – se chama CIÊNCIA.

Quando os cientistas das décadas passadas avaliaram a obesidade e o consumo de gordura, não levaram em consideração vários outros dados que deveriam ser observados, principalmente olhar a alimentação como um conjunto de nutrientes – e não somente apenas um nutriente isolado. Um dos maiores fisiologistas que escreveram sobre a malvada gordura (naquela época) pode decidir quais dados ele colocaria no seu estudo  – e lógico, quais ficariam de fora. Dentre os excluídos, ficaram alguns países onde as dietas eram ricas em gorduras mas pobres em doenças cardíacas. Ao mesmo tempo, ele visitou alguns lugares na época pós guerra, onde a dieta era infinitamente ‘magra’ em qualquer aspecto – até a gasolina era escassa, as pessoas andavam muito mais a pé (e é sabido que a atividade física é uma enorme colaboradora para a redução do colesterol).

Da mesma maneira que foi muito difícil observar as ondas gravitacionais, é muito complicado provar algo na ciência ‘nutricional‘ – vamos nomeá-la assim.

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Toda ‘conclusão’ científica se inicia através de uma observação, que depois vira um ensaio clínico, depois é testada em animais (ou não), e depois, se houver consentimento do comitê de ética, vira experimento em humanos. Além disso, transformações biológicas per se demandam tempo, todo estudo epidemiológico bem feito depende de uma amostra bem definida e geralmente leva bastante tempo.

E muitas vezes essa conclusão sofre modificações com o passar do tempo, não porque ‘tudo muda o tempo todo’, mas porque cada estudo é feito em um tipo de amostra. Ex: vamos imaginar que hoje concluímos que comer manjericão é bom para o coração – mas esse estudo é feito em homens saudáveis, magros, entre os 50 e 60 anos que jogam tênis 3x/semana. Daqui alguns anos outro estudo será feito em adolescentes obesos e sedentários – e quem pesquisou vai descobrir que manjericão não serve nada de nada pro coração.

Isso quer dizer que o manjericão não é amigo do coração? Não! Isso significa que manjericão, quando consumido nas doses x, por homens y, pode auxiliar na melhora da saúde cardíaca.

E as ondas gravitacionais ainda tem mais relações com a gordura do que você imagina…

Quando eu li a reportagem das ondas gravitacionais, confesso que achei interessante – uma vez que é legal saber que o Einstein era um gênio visionário, que formulou essa teoria há um século atrás e agora conseguimos observá-la. Mas confesso que não fui muito além do título da reportagem, porque meu conhecimento sobre esse assunto está aquém das piores expectativas.

Porém sei que muita gente faz isso com notícias sobre nutrição. É no momento que você lê o título de um livro que chama ‘Barriga de Trigo’ que começa a acreditar piamente que o trigo vai acabar com seu abdômen… é no momento que você lê na capa da Veja para comer ovo, e sai comendo 12 ovos por dia. É no momento que lê na capa da Boa Forma sobre o chá verde emagrecedor e acaba com o estoque de chás do Mercado Municipal.

Isso aconteceu com a gordura, e prevejo num breve futuro, todo mundo deixando de lado essa idéia perturbadora de não comer glúten sem ter doença celíaca. Mas também prevejo coisas mais difíceis, como mulheres com osteoporose prematura de tanto evitar leites e seus derivados (por causa da lactose), assim como já vejo pessoas com a imunidade totalmente abalada pela ausência de frutas na alimentação (por causa da frutose) e uma crescente população em conflito com a alimentação devido aos alimentos ‘bons’ e ‘ruins’.

gordura

Por isso toda vez que você assistir ou ler uma reportagem sobre qualquer dado da saúde, desconfie. Procure, se informe. Vá atrás dos melhores especialistas. Pergunte, questione. Veja se não há um interesse de vender uma notícia (ou um produto) a todo custo. Desconfie de alimentos que prometem, e observe a alimentação de uma maneira geral, e não de uma maneira pontual. Duvide de chamadas sensacionalistas.

Gorduras, carboidratos e proteínas fazem mal quando consumidos em excesso: e se você é fissurado por tabela nutricional, pode ter quase certeza de que está consumindo bem menos do que precisa – e isso nem sempre pode ser tão bom!

Até o próximo post!

Beijos!