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24 de abril de 2017

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Papo de consultório: Sudoku, Gummy Bear e nutrição

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Há um tempo atrás atendi uma pessoa que AMAVA balinhas Gummy Bear (aquelas balinhas gelatinosas em formato de ursinho). Eu entendo que balinhas em geral são gostosinhas, mas o fato de um  alguém gostar tanto de Gummy Bear a ponto de comer um pacote por dia me impressiona bastante.

A luta para emagrecer  e fazer melhores escolhas estava ali a cada sessão. No dia a dia, ela ia evoluindo relativamente bem. Mas chegava no final da tarde, lá estavam as balinhas. Ela tentou de tudo: comer banana, bananinha sem açúcar, tomar um café… nada resolvia. Ela começava bem e terminava com os ursinhos coloridos dentro do estômago.

Durante uma consulta, a paciente me contou que comia as balas por volta das 17:00 horas. Eu até entendo sentir vontade de comer (ou fome) esse horário, mas tinha algo a mais ali. Qual era o gatilho? Pesquisamos sobe seu ‘passado': Seria aquele um horário que ela sempre comeu quando morava com a avó (que havia falecido há pouco tempo)? A resposta foi não. Seria fome? Não também, ‘fome a gente tem de pão com queijo, não de balinha” – ela dizia. Pesquisamos tudo, enquanto os ursinhos entravam goela abaixo – e atrapalhavam o processo de perda de peso e de pazes com a alimentação.

Um dia, falando sobre rotina em geral, descobri que as pessoas do trabalho dela deixavam o escritório as 18:00 – enquanto ela ficava até as 20:30. EUREKA!

Os ursinhos estavam tentando alimentar todo aquele sentimento de “ainda faltam 3 horas para ir embora” que o momento deixava, além de cobrir o vazio da partida dos colegas de trabalho.

Mas não adianta só descobrir o problema, tem que achar uma solução.

As vezes a gente pensa que só de saber o processo, jávamos controlar a situação. E não é bem assim.diabinho

Lógico que ela tentou, em vão, apenas se concentrar e pensar “é só uma ansiedade, vai passar, não preciso de balas”. Mas a cada repetição “não preciso de balas” vinha a imagem da bala de ursinhos na cabeça dela. Eu, com minha imaginação super fértil, já imaginava os ursinhos em forma de diabinho e anjinho em cima da cabeça da paciente, desafiando toda a famosa ‘força de vontade’. 

Fomos investigar qualquer coisa que ela gostasse, mas que não fosse um alimento. E ela me disse “mas Marina, só a comida vai resolver!”. Com muita insistência, ela foi com uma lição de descobrir outra coisa que prendesse muito a sua atenção.

Chegamos no Sudoku.

A época era do Candy Crush, mas a política da empresa não permitia o uso de celulares de uma maneira tão aberta. Então apelamos pro modo old fashioned. Ela adorava sudoku e não tinha nada ou ninguém que se opusesse a esse ato.

E deu certo. A questão toda das 17 horas não era a fome ou o amor pelos ursos coloridos. Era a ansiedade, o ócio, a falta de concentração. O pacote ficou ali, muito tempo na gaveta, caso desse algum tilt no sistema e ela precisasse do conforto. Mas concluímos que ela já havia percorrido e terminado essa fase com louvor.

Muitas vezes a gente fica super preso em descobrir uma comida que nos satisfaça no horário tal, queremos saber quantos gramas de queijo podemos comer na hora de chegar em casa, ou qual fruta é melhor ou pior para tal situação. Mas na verdade, a gente precisa pensar além da nutrição. Entender nossas ansiedades, o vazio que algo nos deixa.

Eu sempre recomendo livros, vídeos ou textos que vão além nutrição. Porque muitas vezes a alimentação é uma forma de expressar algo que estamos pensando ou sentindo, ou a recompensa de um hábito.

Nesse episódio ficou muito claro para mim que falar especificamente da alimentação pode ser secundário numa consulta – ou numa mesa de bar. Afinal, nossa alimentação tem outros quês e porquês que precisam ser trabalhados com a mesma atenção.

Se você pretende fazer uma reeducação alimentar, não pense que ela existe apenas quando respeitamos seus sabores favoritos ou te sugerimos que você coma de tudo um pouco. Abra seu coração e mente para mudanças mais profundas, a começar pela observação do próprio comportamento!

Até a próxima!