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A importância (ou não) do plano alimentar

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Esse email poderia ser recebido por qualquer nutricionista. Pacientes que se propõe a emagrecer ou mudar a alimentação e procuram um profissional para ter um plano alimentar (habitualmente chamado de ‘dieta’ ou ‘cardápio’). E nós nutricionistas passamos a graduação inteira esperando o momento de aprender a ‘montar uma dieta’, e depois que nos formamos usamos o plano alimentar como objeto essencial de tratamento.

Porém, depois de um tempinho trabalhando em consultório, eu comecei a me perguntar o real alcance do plano alimentar. Será que realmente é a melhor maneira de trabalhar?

Antes de tudo, vamos esclarecer alguns pontos:

O que é um plano alimentar?

O plano alimentar é um documento que mostra para o paciente como ele deve se alimentar. Geralmente ele é separado em refeições (refeições principais e lanches) e sugere o que você deve comer, com as substituições que você pode fazer.

Como ele é ‘calculado’?

Quando você chega no consultório, o(a) nutricionista faz uma avaliação física te pergunta sobre seus hábitos alimentares. Você responde tim tim por tim tim, contando tudo o que come habitualmente, as quantidades e etc. A partir dessa descrição nós nutricionistas calculamos o seu consumo – levando ainda em consideração sua atividade física, atividades diárias, exames e etc. Se você precisa emagrecer, montamos um plano alimentar que gera um déficit calórico: um plano com menos calorias que você consome e uma distribuição de nutrientes numa maneira que auxilie a perda de peso e mantenha a saúde. Além disso o nutricionista tem o dever de montar algo que condiz com suas preferências e aversões alimentares e claro, sem fazer você passar fome e sem restringir qualquer alimento ou nutriente sem necessidade.

O que acontece depois?

Em tese você deve seguir o plano alimentar conforme o nutricionista te passou, e voltar depois do tempo determinado por ele. Na próxima consulta você vai fazer outra avaliação física (muito importante, já falei sobre isso aqui nesse post) e verificar a perda de peso e como foi no quesito alimentação. A partir daí as modificações no plano serão (ou não) feitas, tudo de acordo com os resultados e objetivos.

Mas obviamente nem tudo são flores. O plano alimentar, na minha opinião, ainda é um instrumento de eficácia muito discutível. Existem pontos negativos e positivos na utilização desse método, e é o que eu discuto abaixo

pontos negativos

Nossa fome nem sempre é igual

Quando montamos um plano alimentar, estamos considerando o seu relato na consulta. Mas os nossos dias não são iguais: podemos sentir mais ou menos fome. A variação da fome acontece devido a mudanças ambientais (frio, calor, etc), fatores físicos (sono, stress, período pré menstrual, atividade física) e fatores emocionais (alegria, tristeza, raiva, stress, etc). O plano alimentar é baseado em um dia perfeito… e vamos combinar que os nossos dias estão bem distantes da perfeição. Por isso o momento da consulta é tão importante: é ali que o paciente vai explicar sua rotina, ansiedades, hábitos; e o nutricionista vai entender como funciona o padrão alimentar daquele paciente, explicar a diferença de fome e vontade de comer, passar orientações que vão além de nutrientes – e levam em consideração o comportamento alimentar.

Variações além ou aquém das expectativas

Muita gente se consulta com o nutricionista esperando mil e uma variações de cardápio. Esperam todo dia comer algo diferente! Baseados nas expectativas dos pacientes, nutricionistas prescrevem um plano alimentar com mil tipos de variações. Em contrapartida, existem aqueles planos alimentares super limitados, onde o paciente só pode comer um tipo de alimento, com baixíssimas variações: isso também não é legal. Variações são necessárias para garantir o consumo adequado de nutrientes e evitar a monotonia alimentar, mas não podemos ir tanto ao céu e nem tanto ao mar. Além disso, não conseguimos colocar todos os alimentos do mundo num pedaço de papel, e o paciente pode muitas vezes ficar preso somente ao que está escrito ali, abrindo mão de alimentos benéficos que não estão descritos.

Limita a consciência alimentar

No meu ponto de vista, o plano alimentar pode limitar a consciência alimentar. Você precisa somente seguir uma ordem prescrita no papel e pronto, não tem que fazer muito esforço pra pensar se está ou não com fome, se precisa ou não comer aquilo que está prescrito, se outro alimento te saciaria mais ou menos. Pensar para comer é ESSENCIAL não só para emagrecer, mas principalmente para MANTER o emagrecimento.  Ninguém quer ficar eternamente escravo de um plano alimentar, e muito menos de um nutricionista falando o que você vai ou não comer – até porque, podemos comer de tudo, mas em quantidade. Um exemplo: As vezes você não está com tanta fome e nem precisa comer o lanchinho da tarde prescrito, mas ele está lá no papel. Você come por obrigação, no automático. Não avalia a presença ou ausência de fome.

escolheacomida

Criar novos hábitos

O plano alimentar propõe novos hábitos muitas vezes essenciais, mas perdidos. Por exemplo: algumas pessoas tem necessidade de fazer pequenos lanches entre as grandes refeições, para ‘segurar’ a fome nestes momentos. O plano alimentar descreve o que podem ser esses lanches, de acordo com a rotina de cada um. Outro exemplo: muita gente não toma café da manhã, ou não sabe o que comer antes e depois da atividade física. Com o plano, conseguimos incentivar e organizar a alimentação de uma maneira que novos hábitos sejam criados.

Idéias práticas e simples

O nutricionista não tem o poder nem o dever de complicar, mas sim de facilitar. A alimentação deve ser prática e simples, sem muita invenção de moda. Por mais que o desejo do alimento da moda seja grande – e muitos nutricionistas cedem em excesso a essas expectativas – o papel do profissional é prescrever o necessário, e não aquilo que o paciente deseja apenas para agradá-lo. O nutricionista consegue, através do plano, dar idéias práticas e aplicáveis, compatíveis com o dia a dia do paciente.

Trabalhar a saciedade através de qualidade e quantidade

Um plano bem montado contempla a diversidade de alimentos para garantir o consumo indicado de calorias e nutrientes. Mas ele também é uma excelente ferramenta para testar como cada alimento influencia na fome/saciedade de cada um. Sabemos que alguns alimentos nos mantém saciados por mais tempo, enquanto outros matam a fome mais ‘rápido’, alguns dão mais energia e outros não. Porém isso pode variar de pessoa para pessoa. Um exemplo clássico para mim é sobre a inclusão ou não da fonte de carboidrato no almoço: tem gente que passa o dia com fome se não comer nenhuma fonte de carboidrato no almoço (eu, por exempl), enquanto outras pessoas se sentem sonolentas e pesadas, preferindo excluir ou reduzir essas fontes no mesmo horário.

E qual a conclusão?

Que o plano alimentar é mais uma ferramenta, mas o tratamento nutricional não pode ser baseado somente nele. Principalmente para quem quer emagrecer de maneira sustentável

– o plano alimentar se torna indispensável para casos mais específicos, como atletas e portadores de determinadas patologias –

A grande verdade é que a maioria das pessoas que procuram um nutricionista – falo isso por mim, principalmente – tem uma idéia engessada sobre alimentação: querem somente o papel com a dieta e pronto. A maioria das pessoas dão muita importância ao papel, ao pré e pós treino, ao excesso de carboidrato, a semente milagrosa e a dieta alheia e esquecemos de avaliar como o nosso corpo se comporta diante do alimento. O plano  ajuda em alguns aspectos, mas pode atrapalhar no desenvolvimento da consciência alimentar necessária. A lição que tiramos disso tudo é que o momento da consulta é essencial para o nutricionista escutar e propor estratégias que englobem outras ações que vão além da comida. Já o paciente deve aproveitar o momento para entender sobre nutrição com um profissional, mas também para aprender sobre o próprio corpo.

Até a próxima!