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Porque a ciência muda tanto?

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Esse vídeo do porta dos fundos figura, de maneira muito engraçada, o dia a dia de várias nutricionistas, infelizmente. E claro, de muitos pacientes e pessoas que vivem procurando informação para melhorar a saúde, o peso e etc.

Acho que diariamente escuto a frase “ah, mas um dia o ovo mata, no outro dia faz bem… Eu já não sei mais o que comer”.

Porque a ciência muda tanto?

Na verdade a ciência não muda tanto, o que muda é o jeito de interpretar uma informação. Aí mora o verdadeiro perigo. Não dá para contar com a preocupação do público leigo. Aquela máxima ‘sou responsável pelo que eu falo, e não pelo que você entende’ não funciona quando falamos sobre saúde. Afinal, é responsabilidade dos profissionais preparados passar a mensagem de maneira clara.

Vamos entender como funciona a ciência!

de maneira resumida, claro…

Geralmente uma pesquisa científica se inicia a partir de uma observação. Exemplo: os pesquisadores começam a notar que populações que consomem mais frutas e verduras tem menor incidência de câncer de estômago. Então, primeiramente, se estabelece uma correlação entre as frutas e verduras e o câncer de estômago. Depois esses estudiosos procuram saber qual é o composto responsável por essa correlação (e se ela de fato existe).vamos chamá-lo aqui de composto X. Então eles começam a estudar esse composto X in vitro, ou seja: dentro do laboratório eles replicam o ambiente ‘humano’ e fazem vááááários estudos com o suposto composto X que previne o câncer.

Depois eles evoluem para cobaias (geralmente ratos), e então ocorrem os testes em humanos (ou não, já que para submeter um humano a testes científicos depende muito do tipo de pesquisa).

Basicamente esse é o processo de uma pesquisa científica. Estou falando de maneira bem objetiva e prática, mas logicamente existem mil outras questões no meio dessa ‘bagunça’ toda. E também existem outros tipos de pesquisas. Mas é importante que você saiba, mesmo que de maneira geral, para entender porque tantas informações ‘mudam’ ou porque somos bombardeados de tantas informações ‘erradas’.

rato

Conflito de interesses

Algumas pesquisas são realizadas objetivando interesses financeiros (de maneira direta ou indireta), prestígio profissional, interesses políticos, ideológicos, etc. Explicando de maneira prática: estudos são feitos sob encomenda de uma grande empresa farmacêutica que deseja vender um suplemento alimentar. Se o grupo responsável por fazer a pesquisa quiser ser beneficiado pela empresa, ele manipulará os dados de uma maneira que mostre que o tal suplemento alimentar pode ser (ou é) benéfico para a saúde do consumidor. Dentre esses benefícios estão desde honorários (money! $$$$$$) até cargos importantes em instituições. Por isso não se engane: para cada produto milagroso no mercado, há um estudo retificando a importância daquele, mesmo que outros 1000 falem contra.

Patentes e lucros

Ainda falando sobre interesse financeiro (it’s all about money, baby!) é muito interessante defender estudos tendenciosos, manipulados e parciais. Afinal, não podemos patentear uvas, mas podemos retirar o que faz bem na fruta e colocar em cápsulas – e aí sim, vendê-las.

money

 

Estudos mal conduzidos

Temos várias formas de pesquisar algo. No caso, estamos falando do composto ‘x’ que previne câncer de estômago. Pois bem, descobrimos que pode haver essa co-relação, mas os pesquisadores não levaram em consideração que aquela população que apresentou baixa incidência de câncer de estômago tinham um peso controlado; não sofriam de stress diário (ansiedades, nervosismos, etc); praticavam atividade física regularmente; se hidratavam bem e tinham um sono excelente. Ou seja: será mesmo que o fator ‘X’ foi o responsável por evitar o câncer de estômago, ou seria uma consequência do estilo de vida saudável que essa população tinha?

Estudos mal interpretados

Bem, suponhamos o composto ‘x’ foi demonstrado como fator importante para combater células tumorais in vitro. Os pesquisadores então publicam UM trabalho super interessante demonstrando esse fator. A imprensa fica sabendo do trabalho e coloca na capa do jornal “COMPOSTO X CURA O CÂNCER DE ESTÔMAGO!”.  Pronto, o circo está armado: nutricionistas (e outros profissionais de saúde) enlouquecidos começam a dizer que todos devem comer váááááárias frutas e vegetais que contém o composto X e a indústria farmacêutica aproveita para produzir váááááárias cápsulas de composto X isolado. Isso tudo por causa de um estudo in vitro. Um estudo é muito pouco para comprovar algo, muito menos quando feito in vitro. Sabemos que vários estudos tiveram um comportamento muitas vezes benéfico ‘dentro do tubo de ensaio’, mas quando replicamos a mesma situação no corpo humano, a conversa é outra.

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Compostos X são para pessoas X

O que acontece muito é generalizar um dado. Supomos que conseguimos mostrar que o composto ‘X’ realmente é efetivo na prevenção do câncer. Porém o estudo foi feito com mulheres com IMC entre 20 e 25, na faixa dos 30 anos, praticantes de natação. Talvez esse mesmo composto ‘X’ não funcione em homens obesos, na faixa dos 60 anos e sedentários. Mas é interesse da indústria farmacêutica, da mídia e etc de vender aquela informação, e agir de maneira subliminar: se mal não vai fazer, porque não usar dessa maneira?

Esses são apenas alguns fatores que fazem a informação se tornar distorcida!

Se é do interesse da mídia, dos profissionais, e da indústria, o estudo que for do interesse será colocado em posição de importância, e não naquele que realmente faz sentido.

Por isso é muuuuuito importante que você sempre se questione quando se deparar com alguma promessa de milagre (principalmente quando se trata de emagrecimento), dietas super ultra bizarras, e a insistência de alguns profissionais em indicar e vender zilhões de suplementos, produtos, tratamentos e etc.

Claro que todos nós profissionais de saúde podemos e devemos sugerir produtos. Porém existe uma diferença muito grande entre indicar porque você acha legal e realmente necessário e indicar porque está sendo beneficiado – seja de forma direta e indireta.

Além, claro, da mídia que faz questão de sempre eleger um alimento queridinho e um vilão! E aí acontece justamente como o filme do porta dos fundos!

ciencias

Até a próxima!

Beijos,

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