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Vale a pena tirar o glúten?

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Acredito que várias pessoas que lêem o blog já se perguntaram se deveriam tirar o glúten da alimentação (ou conhecem alguém que tirou). Inclusive existe aquele livro ‘barriga de trigo’, que fala sobre a questão milagrosa de retirar o trigo da dieta – me deu sono só de pensar nessa restrição desnecessária.

Mas é um fato que a dieta sem glúten tem atraído muita gente! Isso porque vááááárias pessoas afirmam perder peso, outras dizem que o intestino funciona melhor, algumas ficam menos inchadas. De fato, se você consome alguma classe de alimentos em excesso (no caso, os carboidratos), provavelmente irá perder peso. Além disso, irá ‘desinchar’ devido a algumas propriedades dos carboidratos. Como vários alimentos tem glúten (desde o pãozinho até a cerveja ou o sorvete), as pessoas acabam indo para outras soluções (que podem ser menos calóricas).

Mas tirar o glúten parece não ter tantas vantagens assim. Quem pensa que o tirar o glúten revoluciona a vida e melhora todos os aspectos da saúde podem estar enganados. O fato é que não foram demonstradas vantagens efetivas na retirada do glúten. E eis aqui mais uma prova.

Glúten: vilão ou mocinho?

Glúten: vilão ou mocinho?

O mesmo pesquisador que forneceu a evidência da existência de uma intolerância ao glúten (que não é classificada como doença celíaca) publicou um bom estudo mostrando justamente o contrário.

Foi um estudo follow up (ou seja, que acompanha os pacientes ao longo do tempo) realizado em 2011 e publicado pela revista Gastroenterology (vol 142, pg 320-328 em Agosto de 2013). A idéia era pesquisar o que causava tantos efeitos colaterais através do consumo de glúten para alguns indivíduos não portadores de doença celíaca. Os pesquisadores recrutaram 37 indivíduos que se classificavam como ‘sensíveis ao glúten (mas sem a Doença celíaca – DC)’. Essas pessoas seguiam dietas específicas (sem glúten, baixo teor de glúten, e com glúten) preparadas com um controle rigoroso, e vários viés. Nem os pesquisadores e nem os pacientes sabiam qual dieta eles estavam consumindo (é o que chamamos de double blind).

Em tese, aquelas pessoas que se auto classificavam como intolerantes ao glúten (porém não celíacas), deveriam se sentir mal com a dieta rica em glúten. Mas, surpresa:

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Sintomas gerais, dor e inchaço

 

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Satisfação com a consistência fecal, cansaço, gases e náusea.

A dieta rica em glúten demonstrou sintomas mais brandos do que as outras dietas (baixo teor de glúten e placebo). É o que chamam de efeito ‘nocebo’.  A discussão é: esses efeitos são causados por fatores psicológicos? Aparentemente sim. O que causaria a flatulência, o inchaço, dentre outros? Ainda não se sabe. O que se sabe é que o aumento da sensibilidade não-celíaca ao glúten parece predominantemente impulsionado por outros fatores, e não por problemas realmente fisiológicos.

Claro que para entender todo o estudo, o importante é ler de cabo a rabo. Estou colocando de uma maneira simplificada para que vocês entendam que atual a existência da dieta glúten free para não celíacos permanece sem fundamento. O foi impulsionado por alguém que já havia descrito a existência da sensibilidade ao glúten!

E qual o motivo dessa verdadeira ‘mania’ de dieta glúten free? Promessas de emagrecimento (claro, isso praticamente move grande parcela do mundo) e interesse comercial. Alguns dados americanos demonstram que 30% da população daquele país procuram alimentos sem glúten e 18% dos adultos já consomem esses produtos. O mercado glutenfree promete mover aproximadamente 15 bilhões de dólares em 2016.

Quem tem o mínimo de conhecimento científico (não precisa ser Phd, ao mínimo tem a curiosidade de saber como funciona), sabe bem que esse tipo de interesse comercial atrapalha a ciência, na cara dura. Profissionais muitas vezes ficam isentos de informações por pura especulação comercial – seja da indústria farmacêutica ou alimentícia.

Nerd pride <3

Profissionais devem amar! <3

De qualquer forma, muitos estudos ainda devem ser feitos para investigar não só os efeitos presença/ausência de glúten… Não existe trabalho perfeito, e não é somente uma pesquisa que irá comprovar isso ou aquilo. De qualquer forma, eu fico na torcida para que as pessoas busquem informações melhores, e parem de ler somente o que interessa ou o que julgam como milagroso. Se tirar o glúten de pessoas não celíacas de fato fosse benéfico, eu juro que iria achar ótimo! Mas por enquanto não passa de uma restrição muito chata: é uma dieta difícil de ser feita, além de cara! Lembrando também que várias pessoas não perdem peso com a dieta, uma vez que muitos alimentos sem glúten tem até valores calóricos mais elevados, além de uma grande quantidade aumentada de gordura :)

Espero que tenham gostado,

Até a próxima

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(quem quiser ler mais sobre o assunto, e tiver acesso ao texto completo eu recomendo a mesma leitura que fiz:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22488077

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23648697

Material não científico: http://www.realclearscience.com/blog/2014/05/gluten_sensitivity_may_not_exist.html)