Kibe Vegetariano e Nutricionismo

13 de julho de 2016

Comida de Vó

13 de julho de 2016

Vou contar sobre a Dieta Paleolítica

13 de julho de 2016
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Eu adoro comer, e adoro tudo que se relaciona com comida. Me tornei assim depois que comecei a cozinhar, e nunca mais parei. Quero saber sobre os restaurantes, sobre as receitas, sobre os temperos…

Me sirva um legume bem preparado que vou comer com o mesmo prazer que como um risotto cheio de queijo: basta estar gostoso.

E a internet é uma ferramenta maravilhosa para os famintos: fotos, informações, dicas, receitas, inspirações… Adoro seguir todos os foodies e aventureiros da gastronomia! O meu negócio é #comidadeverdade

Mas esses dias fiquei chateada: um perfil que ADORO entrou na onda da dieta Paleo. Me senti com aquele fundo musical ‘meu mundo caiuuuuuu, e me fez ficar assim’. Como alguém que AMA comer pode fazer uma DIETA? Sei que cada um tem seus motivos, mas ahhhhh… Dieta? Porque?

Sim, eu também conheço pessoas que emagreceram fazendo a dieta paleolítica, assim como conheço pessoas que emagreceram com outras dietas. Mas dietas serão dietas pra sempre: um modo de alimentar que envolva uma restrição de quantidade e qualidade, geralmente baseadas em argumentos infundados e teorias malucas. E a maioria não é sustentável a longo prazo…

E sim, eu sei que tem um monte de ‘nutricionista paleo’. Mas também tem nutricionista que corta o glúten sem precisar, tem gente que faz urinoterapia, dieta do sangue, dieta do HcG, e por aí vai…

O que é a dieta Paleo?

Segundo informações colhidas na internet (meu Deus, foi duro ler tanta insanidade), essa dieta parte da idéia de nos alimentarmos conforme nossos ancestrais do Período Paleolítico. Ela faria sentido porque nunca encontraram restos mortais gordinhos dos nossos ancestrais (sim, eu JURO que li isso). Já que nossos ancestrais comiam basicamente caça, vegetais e frutas – ou tudo que eles podiam colher – e mantiveram a agilidade e energia, essa alimentação seria a ideal, já que temos praticamente a genética idêntica a eles.

O que você pode comer? E o que não pode comer?

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Essa é uma das versões da dieta paleo, chamada carinhosamente de LCHF – uma sigla para Low Carb High Fat (tradução de baixo em carboidrato / alto em gordura). Mas a dieta Paleo pode passar por váááárias variações: algumas permitem alguns tipos de laticínio, outras aceitam frutas, algumas não, outras permitem que você faça o ‘dia do lixo’ – argghhhh, pânico desse termo – e por aí vai. Convenientes variações, não?

Além da dieta, ela tem vários pontos…

Segundo um site americano que visitei, esses ~imperdíveis~ pontos são:

– Ela não é difícil

– Você não deve considerar deslizes – “porque  se você faz a escolha de comer algo que não é saudável, não trate isso como se fosse um acidente”

– Você não precisa comer o que não quer comer: ‘e para isso aprenda a dizer não (…)não é porque é o aniversário da sua irmã (…) isso não quer dizer que você precisa comer qualquer coisa’

– Você não precisa fazer muito esforço

Qual o problema da dieta Paleo?

Ela é uma dieta

Dietas são processos com começo, meio e fim. Ou seja: quando ela acaba, você volta aos hábitos iniciais, geralmente reganhando o peso. Dietas tem restrições que podem não só ser prejudiciais metabolicamente quanto pisciologicamente: quanto maior a restrição, maior a compulsão. Por mais que a dieta paleo tenha a idéia de ser sustentável a longo prazo, é uma dieta restritiva, o que dificulta muito essa sustentabilidade.

Ela não faz sentido

Obviamente, o planeta não está acima do peso e sofrendo com a obesidade e várias doenças a toa: além do sedentarismo, consumimos cada vez mais comida industrializada em excesso. Trocamos o ato de preparar um prato de arroz com feijão por uma lasanha pronta, rica em ingredientes que você nunca ouviu falar na vida. Não bebemos refrigerante somente aos sábados, com a pizza: precisamos beber litros de refri. Nossa relação com a comida vai de mal a pior e somos incentivados a comer #comidadeverdade.

Mas isso não quer dizer que precisamos comer como os homens da Era Paleolítica – ou Era da Pedra Lascada. Esse período foi compreendido entre 2,5 milhões de anos a.C até 10.000 a.C, onde nossos ancestrais pararam de depender somente de coleta e caça transformaram o Período paleolítico em Neolítico: iniciando o cultivo agrícola e o estoque de alimentos – momento esse chamado de revolução agrícola.

Da revolução agrícola até a revolução inicial foram MUUUUUUITOS anos, e a piora na saúde dos seres humanos aconteceu, de fato, após a revolução industrial – isso porque começamos a comer uma quantidade aumentada de alimentos industrializados e nos tornamos sedentários, já que temos carros, automóveis, elevadores e supermercados que nos permitem não precisar sair correndo para caçar nossa comida.

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Nos tornamos bípedes, mudamos nossa dentição e ossatura para comer não só vegetais duros e crus (mas também carnes). Depois do fogo começamos a cozinhar vegetais, carnes e tubérculos, pois assim o conteúdo energético do alimento se torna mais disponível. Conseguimos armazenar energia em forma de tecido adiposo, melhoramos nosso consumo energético e nos tornamos essa raça evoluída e diferente das outras espécies primatas – mas que continua fazendo dietas malucas.

Com o aumento das populações, a necessidade de aumentar a produção de alimentos cresceu junto com os alimentos industrializados. Por nossa herança ancestral, reconhecemos gordura, açúcar e carboidratos como alimentos altamente energéticos – e não é a toa que a gente baba quando vê um monte de manteiga derretida no pãozinho francês. Afinal, nosso corpo foi programado para estocar energia: você só ‘queima’ se gastar energia – e é beeeem difícil levantar da cadeira pra gastar energia.

– o Dr. Drauzio Varella tem um vídeo ÓTIMO falando em quais situações nós gastamos energia, e porque é tão complicado –

 

Ela é incompatível com a realidade de várias pessoas

Um fato é verdadeiro: o consumo de alimentos industrializados está altíssimo e a união com o sedentarismo fazem as pessoas se tornarem cada vez mais obesas. A dieta paleo, de uma certa forma, estimula o consumo de alimentos in natura. Mas sabemos que na rotina atual é muito difícil abrir mão dos industrializados (pães, iogurtes, minimamente processados e etc), e essa dieta é mais uma que frustra muito quem não consegue realizar na sua totalidade.

Ela restringe carboidratos

A raça humana evoluiu de acordo com o nosso desenvolvimento cerebral. Nosso cérebro gasta até 16x mais do que um tecido muscular (se compararmos por unidade de peso), ou seja: ele consome 20 a 25% da energia total de um adulto. Seu combustível preferido é a glicose. Então PORQUE REDUZIR OS CARBOIDRATOS? “Ah, porque carboidrato engorda”. Jura? E se eu te disser que 1 grama de carboidrato tem o mesmo valor calórico que 1 grama de proteína?

Engordamos por superávit calórico, quando consumimos mais energia (kcal) do que gastamos. O que consumimos em excesso hoje em dia é AÇÚCAR (que é um carboidrato sim), mas também muita gordura trans e em determinadas regiões proteína em excesso. O problema do sobrepeso e da obesidade não é o carboidrato: é um consumo excessivo de alimento e uma péssima relação com a comida.

Ela alimenta a briga entre os alimentos bons x ruins 

Quando a dieta diz que “se você faz a escolha de comer algo que não é saudável”, ele está tratando um chocolate ou um sanduíche como não saudável. Isso só é saudável no excesso – assim como bananas em excesso não podem fazer bem. Alimento ruim x alimento bom não existe! Existe quantidade suficiente, momento oportuno e consciência alimentar.

Ela te julga

Ainda na mesma frase: “porque  se você faz a escolha de comer algo que não é saudável, não trate isso como se fosse um acidente”. Ou seja: se você optou por comer algo que não é permitido, você é fraco. Você cometeu um acidente, um pecado, algo errado. Você se culpa. E isso é TUDO o que não queremos num alimento.

Eu sou uma das pessoas mais favoráveis a uma alimentação mais natural possível. Procuro sempre maneiras de levar o consumo de industrializados para a quantidade mínima, mas ainda preciso de vários deles para viver! Eu, você e vários seres humanos. Se quiséssemos a dieta paleolítica, precisaríamos sair para pescar, caçar, plantar, colher… E acho que ninguém faz isso.

Somos, por natureza, seres sociais. E por isso gostamos de ter uma identidade. Nossa relação com a comida é uma maneira de identificação, de mostrar como somos, ela faz parte da persona. Por isso, talvez, tantas pessoas se sintam confortáveis em optar por uma dieta cheia de regras e permissões.

Eu continuo apoiando a idéia da alimentação consciente. Escolher a comida é muito mais saudável do que ser escolhido pela comida.

Até a próxima!

– para ler mais: 

http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/alimentos_e_evolucao_humana.html

http://www.cienciainforma.com.br/post.php?id=172