O Pão de queijo da Marietinha

Quando eu era pequena lá em Belo Horizonte, eu tinha um amigo que morava no prédio ao lado. Vivíamos um na casa do outro e crescemos juntos. Somos grandes amigos até hoje. A mãe dele, Marietinha, dirigia uma Brasília amarela e nos levava pra aula. Depois da aula, brincávamos na pracinha em frente a escola e comíamos Pão de Queijo da Boca do Forno. Confesso que ia lá mais pelas vendedoras da Boca do Forno (elas adoravam ver o jeito que eu passava o batom certinho sem nem olhar no espelho) do que pelo pão de queijo. É uma delícia. Mas nada se comparava ao pão de queijo da Marietinha.

As vezes voltávamos a pé, caminhando até em casa. Ao chegar, subíamos pra casa do Hugo e comíamos pão de queijo. Ele já desenhava super bem, e me lembro uma vez que tivemos que fazer um trabalho sobre um livro que se chamava “Elê o quê”, que era a história de um menino que se chamava Eleutério. Posso lembrar até hoje do Hugo sentado na mesa pequena que ficava na área de serviço desenhando o Eleutério perfeito enquanto comíamos o pão de queijo da Marietinha e eu tentava em vão desenhar um Eleutério igual o dela.

Outra vez a Belinha, sobrinha do Hugo que tinha quase nossa idade, fez aniversário. Prepararam uma casinha de doces da história do João e Maria. No dia depois da festa, fui comer os doces com eles. Também me lembro da gente sentado no chão daquela sala enorme e vazia, comendo os confetes e os pães de queijo da Marietinha. Me lembro da roupa que estávamos, de tudo. E do cheiro do pão.

Na adolescência a gente adorava ficar na janela da sacada batendo papo e observando a Avenida Uruguai. Era um copão de Coca-Cola cheio de gelo e os pães de queijo da Marietinha, que a gente amassava no prato dando um murro para que eles esfriassem mais rápido.

Também lembro da formatura do Júlio e dos aniversários do Hugo, cheios de cerveja gelada numa tina improvisada no tanque, com aqueles pães de queijo deliciosos. A poodle da casa do Hugo, Yasmin, devia sofrer com todo aquele cheiro de polvilho e queijo.

Sentar na mármore que fazia parte do fogão da Marietinha e comer os pães de queijo da Marietinha era o ponto alto do dia. Lá a gente olhava através do basculante da cozinha e espiava as meninas do 401, respirava aliviado depois de correr de um pivete que quase roubou nossos bonés, fazia contagem regressiva para os nossos aniversários, ria do dia que a Vovó Catulina arremessou uma bengala no Hugo, da vez que joguei cubos de gelo no Playground do prédio vizinho para assustar Hugo e Aline que conversavam (enquanto eu era obrigada a estudar para a recuperação) e da vez que o vento quase me levou enquanto eu esperava a Brasília amarela da Marietinha… Isso tudo fez grande diferença na minha vida. Eu guardo com tanto carinho tudo isso que nem sei dizer.

E aí vem alguém que não consegue compreender o valor sentimental de alimento e inventa um pão de queijo de frigideira, pão de queijo de mandioquinha ou pão de queijo fit. Francamente minha gente… é pra me deixar de cabelo em pé!

Semana passada meu cunhado veio ao Brasil depois de 3 anos morando fora. A gente quis preparar várias comidinhas que ele dificilmente vai comer por lá: bolo de cenoura com cobertura de chocolate, bife a milanesa com arroz e feijão e claro, pão de queijo. Pedi a receita para Marietinha, que me cedeu.

E eu fiz aquela receita toda, que rendeu um pão de queijo delicioso, que me leva a lugares que talvez eu nunca mais vou estar, mas que estão guardados com tanto carinho que me faz perder o ar.

Que bom ter a oportunidade de nos teletransportar com a comida sem precisar contar quantas calorias custam essa viagem! Espero que se deliciem com a receita, e que ela crie novos momentos delicisos!

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Pão de queijo da Marietinha

Rendimento: um monte de pão de queijo

1 pacote (500g) de polvilho azedo (ela recomenda Amafil ou Marinez)

1 copo (requeijão) de leite integral

1 copo (requeijão) de água

1 copo (requeijão) de óleo

1 colher (sopa) de sal

500gr de queijo ralado (quanto mais curado melhor)

4 ovos (mais ou menos)

Misture o queijo com o polvilho. Ferva o óleo, a água, o leite e o sal. Escalde o polvilho e vá misturando com as mãos (no começo usei uma colher de pau porque estava muito quente!). Adicione os ovos 1 a 1 até dar o ponto de enrolar (pode ser que você precise de mais ovos). Enrole e asse em forno pré aquecido a 220graus. Se congelar, na hora de preparar, coloque direto do congelador no forno pré aquecido.

Observações: eu usei uma medida de 200mL, porque não tinha copo de requeijão, e deu certo. O queijo usei um bem curado, super salgadinho, e ficou uma delícia. Dessa vez fiz com o polvilho Amafil!

Se prepararem a receita, me enviem ou me marquem nas fotos, vou adorar!

Até a próxima!

Beijos