A calça japonesa

Na minha viagem para o Japão, vi muitas mulheres com um tipo de saia linda! Uma saia midi, porém estruturada, que dá um ar elegante e cool ao mesmo tempo. Eu quase não uso salto, e elas usavam essa saia com tênis, lindo! Como as japonesas são bem baixinhas, pensei que para mim esse tipo de saia também poderia ficar legal, afinal, altura também foi algo que sempre me faltou.

Entrei em uma fast fashion japonesa e procurei a saia. Achei. Pensando no tamanho de roupa que eu habitualmente uso, peguei a P. Olhei para ela e achei pequena demais. Peguei a M. Aproveitei para pegar umas calças e fui para o provador. 

As calças não passaram da coxa e a saia mal entrou.

Saí do provador e fui até as araras. Procurei pelo tamanho G e GG (no caso L, e XL) e voltei para experimentar. Agora sim! A calça ficou lindíssima, e a saia também. Feliz da vida, paguei e voltei com minhas compras pro Brasil. 

UM TAMANHO NÃO TE DEFINE

Outro dia uma paciente me contou que foi contratada na empresa que ela sempre quis e foi comprar roupas. Ganhou de presente do namorado um vale compras numa loja que ela gosta muito, mas nunca tem coragem de entrar, porque acha que as roupas de lá não são para ela. Mas como ela está trabalhando para rever seus conceitos de corpo e alimentação, ficou animada e foi. Chegando lá experimentou 4 calças lindas. E levou pra casa. Mas me disse que depois ficou se sentindo mal. "Eu gostei das calças, mas eram todas 44! Agora estou com elas no armário, mas não sei se vou usar!".

Perguntei se ela realmente comprou as que ela amou ou ficou presa no número,  e ela me confessou que a calça que mais gostou não teve coragem de comprar porque era 46: "a calça era linda, gostei dela, aposto que ia usar muito. Mas 46 não dá!". 

O número da calça (ou da roupa) é uma questão difícil para várias mulheres. E isso é alimentado pela indústria da moda. Não digo apenas pelas modelos magérrimas nas passarelas; mas também pelas manequins super altas e magras das vitrines, pelo posicionamento das roupas nas araras (vocês sabiam que as roupas menores são as escolhidas para ficarem expostas?), pela ausência de roupas realmente grandes e por vários outros fatores que parecem quase invisíveis aos olhos do consumidor. 

"Tá bom Marina, entendi que existe uma padronização. Mas como não me preocupar com isso?". Responder que você não é um número de roupa é fácil, colocar isso em prática pode ser um pouco mais difícil. E nem é minha pretensão que você vire a chave do dia pra noite, porque não é assim que funciona. Mas eu tô aqui pra fazer você refletir um pouco.

Quando ficamos extremamente focados num número, perdemos a oportunidade de observar outros detalhes em nós mesmas. E não tô falando pra ficar se observando só pra achar qualidades: é pra entender o que você não adora, ou o que gostaria que não fosse tão evidente, e até o que não te agrada. Porque não existe um ser humano no mundo que está 100% satisfeito: e tudo bem. 

Esse olhar clínico, que mostra o que temos de características (não são defeitos ou qualidades, são características), faz a gente se entender melhor. Talvez você tenha um quadril largo e isso te incomode, por exemplo. Você pode batalhar para diminuí-lo a vida inteira, mas provavelmente ele vai continuar maior do que você gostaria, assim como as calças que você irá comprar. Porque ao invés de se prender ao número do que você veste você não investe em uma modelagem que te deixe mais confortável? Que te alongue, ou que te dê mais confiança? Não tô falando pra disfarçar e tentar sair tapando tudo que você olha e pensa "affff, detesto". Estou falando de entender como você é e trabalhar de uma maneira melhor a partir disso.

Tenho observado muito o trabalho das personal stylistConfesso que antes torcia o nariz e achava algo desnecessário, mas hoje vejo que trabalho absurdo de maravilhoso que várias delas fazem. O lance dessas profissionais não é te padronizar, te colocar na moda, ficar te montando pra ser quem você não é. É justamente te fazer entender seu corpo, te dar mais confiança, e até deixar você não gostar de algo e querer dar aquela otimizada no que não agrada. Em vários dos meus aconselhamentos, indico essas pessoas, porque realmente eu acredito que é uma forma de se desconectar do número e se reconectar com o corpo. É um exercício de se olhar com mais gentileza e paciência.

TODO MUNDO TEM SEU PONTO FRACO, BABY

Os meus pontos fracos, por exemplo, são meus peitos e meus pés. Eu não acho meus pés bonitos, por isso tento mantê-los sempre com as unhas bem cuidadas e dou preferência a sapatos mais fechados. Não deixo jamais de usar uma sandália, mas sei qual tipo me agrada e me deixa mais confortável, segura. Também acho meus peitos grandes para o meu tamanho, e não uso blusa justa de alcinha e nem sutiã de bojo. Porque eu não me sinto bem! Mas eu os aceito da maneira que são e aprendi a lidar com isso de uma maneira prática. Eu não preciso olhar e falar "nossa, eu amo meus peitos/pés, lindosssss". Não! Eu simplesmente não os odeio. Eu, meus pés e meus peitos temos um convívio pacífico e amigável.

Agora imagina só que inferno seria a minha vida se eu passasse meus dias pensando que 'não posso' usar blusa de alcinha justa e sandália de tirinha, e que detesto meus peitos e meus pés? Tudo que eu ia querer era usar a bendita blusa e a bendita sandália, não dando espaço para soluções que estão por aí. Porque a moda é uma coisa maravilhosa, plural, e na minha humilde opinião, chique não é seguir todas as tendências (isso pra mim é cafona). Chique é ter autenticidade, é se apropriar, se entender e se respeitar. Você não precisa usar a menor roupa da loja pra lacrar, você precisa é sair de casa com uma roupa que te faça se sentir segura: essa é a verdadeira lacração.

 imagem retirada no pinterest

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ACEITAÇÃO NÃO É ADORAÇÃO

Não acredito naquela forma 'magras devem usar isso, gordas não podem usar aquilo, baixinhas ficam feias assim e assado e altas devem tomar cuidado com sei lá o que'. Eu acredito em segurança e auto conhecimento. E observação. Lembram que no começo do post eu disse que percebi que determinada saia ficava ótima nas japonesas, que são baixinhas como eu? Pois é. Foi assim que experimentei. Caso contrário, seguiria a regra "baixinha não pode usar saia na canela com tênis" e perderia uma das melhores compras que fiz nos últimos tempos.

E não adianta ficar se comparando. Eu acho a Chiara Ferragni lindíssima, mas ela tem 1,77 metros de altura e um peitinho minúsculo. É outro corpo! Isso não me impede de ver algo nela e querer experimentar: mas se não ficar legal em mim, isso não significa que meu corpo seja inadequado. Significa o que é: em mim, não ficou bom. Já parou pra pensar quantas milhares de coisas também não ficam legais nela e em mim ficam ótimas?

Não sei se consegui te mostrar que você não é só um número de roupa, mas gostaria muito que você acabasse esse texto querendo se observar mais. Na saúde e na doença. Porque a busca pela perfeição (ou pela roupa número tal) não tem fim e só traz tristeza e escravidão. Aceitação não é se amar o tempo todo, é entender que não somos perfeitas e não precisamos odiar nossas imperfeições: mas sim saber lidar com elas.

Um Beijo

Marina

Ps: algumas profissionais que gosto muito de seguir no instagram: @thaisfarage, @estiloassinatura e @rizzo__marcia