Diálogo

Christine experimenta vestidos para sua festa de formatura enquanto sua mãe aguarda do lado de fora do trocador: "Está muito apertado, droga!". A mãe, do outro lado, diz: "Bem, eu disse para você não comer aquele segundo prato de macarrão". Contrariada, Christine bufa e a mãe completa: "Querida, você parece estar brava com isso, mas eu só estou tentando ajudar"

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Esse diálogo é uma cena do filme 'Lady Bird, A hora de Voar', mas é a representação do que acontece com milhares de meninas e meninos por aí: mães, pais ou educadores que discursam e julgam insistentemente sobre o tamanho de seus filhos e/ou sobre a forma que eles se alimentam.

 

"Em um dos poucos vídeos que fiz para o Youtube, eu falei sobre o impacto dos discursos de pais e educadores a respeito peso e alimentação das crianças e adolescentes. Frases como "não come isso que você vai ficar gorda" podem até ser ou parecer uma preocupação natural de quem cuida. Porém, a maioria das pessoas que atendo e tem uma péssima relação com a comida e/ou com o corpo relata que sofreram pressões ou julgamentos sobre o peso e a maneira como se alimentavam quando eram crianças. Ou seja: o discurso preocupado não traz saúde, mas sim angústia."

Entendo que a preocupação com a obesidade infantil é importante e que cada vez mais as crianças estão se alimentando pior e se tornando mais sedentárias - contra dados não há argumentos. Porém, quem disse que essa maneira de dizer que 'se preocupa' é a melhor maneira de abordar o assunto?

A Ana Carolina Costa, do site O Corpo é Meu tem um ótimo texto sobre o assunto, e nele ela trás alguns dados, como esse: 

"Um estudo de 2010 mostrou que saber que o filho estava gordo fez com que os pais incentivassem mais a prática de dietas – fator de risco importante para o surgimento de transtornos alimentares e obesidade –, mas não fez com que ele emagrecesse."

( o texto na íntegra está aqui, e ele fala justamente sobre como falar sobre ganho de peso com as crianças) 

Mas você não é mais criança, e agora?

Você pode estar lendo esse texto e acessando suas memórias mais antigas. É duro e cruel, mas você está se lembrando da cobrança da sua família em relação ao seu peso e sua alimentação. Você está percebendo o quanto sua mãe também tinha essa mentalidade de dieta que você, nesse momento, está tentando se livrar. 

A bagunça já foi feita e agora você é um adulto cheio de angústias e inseguranças com relação ao corpo e a alimentação. E seus familiares (pai, mãe, marido, mulher, etc) continuam falando disso.

Mas você finalmente quer quebrar esse ciclo e levar uma vida mais leve. Como lidar com todas essas cobranças que seguem, insistentemente?

O poder do diálogo

 Ilustração de Rachele Cateyes

Ilustração de Rachele Cateyes

Diálogo: esse é o caminho mais poderoso. Você precisa falar sobre o que se passa. Digo isso porque várias pessoas que chegam no consultório decididas a abrir mão das dietas restritivas e/ou da escravidão do corpo magro continuam escutando frases do tipo "se comer assim vai acabar engordando!" ou "você está indo na nutricionista mas não está emagrecendo!". E isso magoa e confunde muito a cabeça de quem toma esse caminho.

 Eu escuto constantemente: "Marina, outro dia minha mãe disse que parece que não emagreci!" ou "Marina, meu marido comentou que estou comendo muito". 

Converse. Explique o que você sente. Não tenham medo de culpar a mãe de vocês: ela provavelmente não teve a intençã. Ela provavelmente também não sabia da gravidade que esse discurso pode provocar em alguém. Talvez ela fez isso porque também se sentia cobrada, ou talvez esse seja o valor da vida dela. Mas vocês tem vidas diferentes e assim como você, ela também deve ter a oportunidade de escutar uma nova opinião, entender uma outra forma de vida que não seja aquela que todo mundo precisa ser magro. 

Abra o jogo, de uma maneira calma. Não tenha medo de chorar. Não tenha medo que sua mãe se revolte, se decepcione, se desaponte. Todo mundo erra, e ela sabe disso. Algumas mães, quando escutam suas filhas dialogando sobre o assunto, se preocupam em se punir porque 'falharam'. Mas lembre que todas falham. Você inclusive, sob a ótica dela, no aspecto dieta, provavelmente já falhou

  imagem retirada do pinterest

imagem retirada do pinterest

Usem o diálogo para explicar tudo o que você sentiu e tudo o que você gostaria de sentir, e como a participação da sua rede de apoio (família, amigos, etc) é importante nesse novo processo. Dê a chance da conversa, e não se frustre se o resultado não for do tamanho da sua expectativa. Algumas mães/maridos/amigos simplesmente não ajudarão, mas pelo menos você falou e mostrou seu ponto, delimitou até onde vai a permissão para alguém fiscalizar seu corpo e seu prato. 

O outro lado do diálogo

Mães, pais, maridos e esposas. Entendam que o momento agora não é de pegar o diálogo e transformá-lo na grande vitimização, em bater de frente com sua filha e chamá-la de ingrata ou tentar provar que você não estava errada(o). A questão aqui não é sobre você. (Ou é, vai saber?!). O fato é que essa pessoa angustiada está falando com você não para te responsabilizar, mas sim porque ela sabe que você é uma das pessoas que mais pode auxiliar nesse processo. 

Falo isso com experiência vivida no consultório e com base em dados como esse (também do texto da Carol): 

Um estudo de 2016 com 500 mulheres entre 20 e 35 anos encontrou que a insatisfação com o peso estava diretamente relacionada ao fato delas se lembrarem de seus pais fazendo algum tipo de comentário sobre seu corpo quando jovens. Além disso, comparando mulheres com peso eutrófico/normal, aquelas que se lembravam desses comentários eram mais insatisfeitas com seu peso do que as que não se lembravam. E segundo o pesquisador principal do estudo, a influência negativa desses comentários foi a mesma independentemente da frequência com que eles ocorriam, ou seja, não houve diferença na insatisfação com o peso entre as mulheres que se lembravam de poucos ou muitos comentários sendo feitos por seus pais quando jovens. 

O diálogo, por mais difícil que ele seja, estabelece novas pontes ou rompe com as antigas. Remexer nisso tudo muita vez é doloroso e difícil, e encarar cara a cara quem sempre te criticou não é a missão mais fácil. Mas confie: o diálogo, até quando a pessoa do outro lado da conversa não te escuta, é libertador. O diálogo alivia e nos transforma.

Beijos e até a próxima!

Marina

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Espero que tenha ajudado e deixo aqui duas leituras muito interessantes para complementar