Celebrar ou culpar?

Dezembro chegou e com ele as preocupações sobre Natal e Ano Novo. E o tal Papai Noel não precisa nem chegar que tá todo mundo já preocupado antes disso. Afinal, confraternizações, amigos-ocultos, happy-hours e outros motivos para festejar já assombram a cabeça de muita gente. É o drama dietético do final de ano, que não deveria existir mais existe.

Afinal, o medo da comida nessa época só aumenta. Para algumas pessoas, como aquelas que tem algum tipo de transtorno alimentar (em tratamento ou não) é realmente mais sensível. Mas e para quem apenas está preocupado com a demonização das comidas e do próprio corpo?

Agora é natal, ano que vem será carnaval, depois páscoa, copa do mundo... e novamente Roberto Carlos aparece na tela da sua televisão cantando Jesus Cristo, e os memes com a cantora Simone reaparecem. Ou seja: cada vez você terá um motivo diferente para todo o dilema. O que me faz perguntar: será que essa preocupação faz sentido? Não seria mais inteligente aprender a lidar com as datas que SEMPRE irão existir?

Você não é o que você come - pelo menos, de maneira isolada

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Um dia ou outro aproveitando o que a vida tem de bom para te dar não define sua alimentação. Você não é uma derrota se não consegue fazer que nem a 'plena' do instagram que pula o couvert do jantar e vai direto pra saladinha sem sal e sem azeite. Comer um pouco a mais, eventualmente, não vai te engordar mais e nem te emagrecer menos, principalmente se você fizer essa refeição de maneira consciente, sabendo que aquilo não é um erro que precisa ser compensado ou punido mais tarde, mas sim entendendo que momentos como esses fazem parte da vida e que não faz muito sentido se culpar pela própria felicidade.

Gostamos de coisas gostosas. Estranho seria se não fosse assim.

"Sabe qual o problema, nutri? É que eu gosto muito de comer coisas gostosas!". Estranho seria se você gostasse de comer areia, cimento, pedra ou qualquer outra coisa não categorizada no grupo 'comida'. Gostar de coisas gostosas é algo natural. E tem gente que acha torta de chocolate uma delícia, outros adoram uma salada bem temperada. Desde que sua preferência seja autêntica - ou seja, não vale falar que salada é gostoso só para se manter numa dieta - está tudo certo gostar de comida. Não se culpe por gostar de todas as delícias que você encontra nas festas de fim de ano. Com exceção de passas. Se você gosta de passas, eu estou te julgando nesse momento, hahaha.

O universo ao seu redor

Se estamos num ambiente hostil, ou comemos em excesso ou evitamos ao máximo. Se você está entre amigos que mais falam sobre dietas e restrições, provavelmente não vai ser ali que você se sentirá confortável para comer o que quer. Porém, depois, na calada da noite, escondida as vezes de você mesma, vai rolar aquela vontade de comer até o rodapé de casa - restrição gera compulsão, lembram? Se você está num ambiente chato, onde pessoas se assemelham a malas sem rodinha, a tendência é que você coma mais para se distrair. Atente-se ao ambiente. Numa festa deliciosa, rodeada de gente legal, nós comemos. Mas nos ocupamos também com os amigos, a música, a paquera... enfim, com várias outras coisas legais que fazem parte da vida.

Você tem fome de que?

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É interessante saber como sua fome se comporta? Você se sente mais confortável em fazer escolhas se está minimamente satisfeito, ou acaba comendo antes e depois comendo de qualquer jeito? Estar morto de fome atrapalha no seu consumo?

Respondendo essas perguntas, você pode decidir se faz um lanche antes do compromisso que tiver ou se deixa para comer só lá mesmo. 

Durante o Happy Hour ou confraternização, o importante não é saber qual bebida ou comida tem mais ou menos calorias, afinal, a gente não conta calorias. O importante é saber como você se sentirá confortável na hora e claro, depois. Afinal, não adianta falar que você vai se sentir um campeão se fez a melhor escolha fitness do mundo durante o jantar mas ao chegou em casa comeu um panetone quase inteiro. O que você quer comer? O que você se imagina comendo? O que é gostoso para você, e qual quantidade você consegue se satisfazer sem precisar sentir que seu estômago vai explodir? Qual a última vez que você comeu aquela comida e qual a próxima que irá comer?

Então é Natal, o que você fez?

No livro 'Fome',  de Roxane Gay ela fala sobre refeições em família de uma maneira super interessante: "se juntavam e se tornavam uma ilha dentro de si mesmos, a mesa (...) sendo o sol ao redor do qual nos revolvíamos".

Quando celebramos ao redor da comida, não estamos em uma ilha que há somente isso para nos oferecer. Estamos num local com outras pessoas que conversam sobre assuntos, vidas e histórias diferentes. Nessa época do ano, questionamos nosso passado, numa espécie de retrospectiva. Fazemos um balanço. Planejamos o próximo ano. E nem tudo que acontece nos 334 dias que antecedem o período de 1/12 a 31/12 está ligado a comida. Nos relacionamos com pessoas, com nosso trabalho (ou ócio), com nossa família. Brigamos, fazemos as pazes, choramos e rimos. Porque nesse período a preocupação maior tem que ser com algo tão essencial pra nos manter vivos 

Repensar nossa relação com a comida, fazendo isso de maneira intelectual e prática, é algo possível nessa época do ano. E esse é meu desejo de natal para vocês! Diversão, permissão e reflexão. Tudo de maneira bem autêntica, leve e verdadeiro, longe dos filtros e das falsas inspirações do instagram.

Após ler esse texto e refletir um pouco, me contem: o que vocês pretendem fazer para tornar essa época do ano mais leve e feliz? Quais as estratégias para lidar com a comida e o corpo de uma maneira mais amigável?

E dezembro, pode vir. Estamos te esperando pra comemorar bastante!

Beijos,

Marina