Eu tenho umas compulsões alimentares

Tem quem chegue nos consultórios de nutricionistas com a seguinte fala: “eu tenho umas compulsões alimentares". Talvez você já tenha pensado que come compulsivamente, que é compulsiva ou que tenha compulsão alimentar - e que isso é falta de força de vontade, que você precisa é tomar vergonha na cara e parar de comer tanto.

Mas na verdade, não é uma questão de força de vontade: compulsão alimentar é um transtorno alimentar bem diferente de comer muito - e não se trata com dieta.

  imagem retirada do pinterest

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E qual a diferença? O primeiro passo é saber o que é compulsão alimentar. E para que as pessoas sejam menos julgadoras e quebrem essa idéia de que pra comer pouco ou bem a gente precisa só ‘querer', também é interessante entender a compulsão alimentar.

Segundo o DSM - 5 (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais elaborado pela associação americana de psiquiatria) o Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA) é caracterizado por:

  • Ingestão, em um determinado período de tempo, de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiriam sob a mesma circustância +

  • Sensação de falta de controle sobre a ingestão alimentar durante o episódio;

Esses episódios, para serem caracterizados como compulsão alimentar, devem vir acompanhados de três ou mais dos seguintes aspectos:

  • Comer mais rapidamente que o normal;

  • Comer até se sentir desconfortavelmente cheio;

  • Comer grandes quantidades na ausência da sensação física de fome;

  • Comer sozinho (por vergonha)

  • Sentir-se desgostoso de si mesmo, desgostoso ou culpado em seguida

A compulsão também deve vir acompanhada de sofrimento marcante e deve ocorrer no mínimo 1x/semana durante 3 meses.

Mecanismos compensatórios (vômito, laxante, jejum, atividade física) não são características da compulsão, e ela não ocorre durante o curso da bulimia nervosa ou anorexia nervosa. Ou seja: não existe alguém que tenha TCA e Bulimia ao mesmo tempo.

Entendido?

“Acho que não tenho o transtorno, mas ainda acho que sou compulsiva!”

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Isso é muito comum. Talvez você não tenha se reconhecido em todos os critérios, só em alguns. Por isso é recomendado que você converse com alguém especializado.

E talvez você não tenha se reconhecido em nenhum critério, mas continua acreditando que a compulsão alimentar faz parte da sua vida. Então vem cá, que vamos conversar:

Se você vive de dieta, fazendo restrições e pensando que não deveria estar comendo isso ou aquilo, provavelmente vai achar que tem compulsão toda vez que comer um pouco mais do que você se permitiu. Um exemplo: você não come doces nunca e já fez até desafio dos 30 dias sem açúcar. Na sexta feira você chega em casa depois de um dia duro de trabalho, ou que brigou com o namorado/namorada e dá de cara com aquela barra de chocolate. Pega o primeiro pedaço, come e depois pensa “ah, f*da-se, já comi mesmo, deixa eu comer logo o resto”. Nesse caso, provavelmente você não tem uma compulsão alimentar. Você simplesmente cedeu a uma vontade que tava aí dentro de você, isolada momentaneamente por tanta restrição.

Outro exemplo clássico da confusão entre compulsão e exagero são os finais de semana. Quem faz dieta restritiva tem o hábito de se manter ‘na linha’ de segunda a sexta e aproveitar o final de semana para comer tudo, como se estivesse numa festa open bar. Algumas vezes rola um exagero no final de semana, em outras você simplesmente deixa a restrição de lado e come o que qualquer outra pessoa comeria - nesse caso, não é compulsão alimentar, é apenas não fazer restrição e, talvez, comer um pouco a mais do que você comeria no dia a dia. Nada mais natural.

Por isso é importante pensar: será que eu estou exagerando ou estou apenas saindo dessa restrição extrema? E também lembrar que essa sua sensação não melhora com restrição! As restrições, por mais inocentes que elas possam parecer, só prejudicam.

“Acho que tenho Compulsão Alimentar, e agora?”

Se você se reconheceu nessas características, precisa saber o seguinte: o diagnóstico não é feito por quem sofre do problema, mas sim por um médico psiquiatra. Ou seja: outro médico que saiba do problema pode até sugerir que talvez você tenha o transtorno - assim como outros profissionais também possam identificar o transtorno. Mas quem dá o diagnóstico, bate o martelo, confirma no verde é o PSIQUIATRA. Falo isso porque tô careca de ver um monte de médicos de outras especialidades dando diagnóstico de Compulsão Alimentar pra justificar as medicações passadas pra emagrecer: “acho que você tem compulsão, por isso come tanto. Esse remédio é ótimo: controla isso e te ajuda a emagrecer. Passa na nutri e pede uma dieta pra essa compulsão que ela vai te ajudar”. Atenção: eu já vi isso acontecer não só uma vez, mas DIVERSAS vezes. E não é assim que se trata o problema.

Nutricionistas e terapeutas podem identificar o transtorno, mas, novamente, o médico psiquiatra é quem bate o martelo e faz o diagnóstico. Ou seja: qualquer profissional identifica o problema e inicia os cuidados, mas o responsável por afirmar com 100% de precisão que você tem o transtorno é o psiquiatra.

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Tô insistindo nisso do psiquiatra, né?

Sei que isso pode assustar um pouco, porque doenças mentais ainda carregam um estigma duro e pesado, infelizmente. Mas Transtornos Alimentares são doenças psiquiátricas, e devem ser tratadas com uma equipe preparada, multidisciplinar, que envolve a especialidade de psiquiatria. Nutricionista e terapeuta também são imprescindíveis e, se necessário, outros profissionais podem ser envolvidos (terapeuta ocupacional, dentista, fisioterapeuta, e outros).

E se você continua assustado com o nome ‘doença psiquiaátrica': isso não é uma questão de falha de caráter ou falta de força de vontade . O transtorno alimentar, como outras doenças mentais são multifatoriais que podem acontecer com qualquer um!

Ah, e o mais importante: compulsão alimentar não se trata com dieta! Já ouviu aquela máxima “nem toda dieta leva a um transtorno alimentar, mas todo transtorno alimentar vem de uma dieta restritiva”? Então… melhor não né? Medicações também podem ser necessárias, mas isso é conversado com o médico.

Transtorno da Compulsão Alimentar é algo silencioso: muitas pessoas tem e não contam. Os episódios de compulsão, via de regra, acontecem na solidão, escondidos. Por isso é tão difícil acessar a pessoa que sofre e sugerir que ela procure ajuda. Mas se você tem e quer abordar o assunto com quem possa te ajudar, converse. Procure profissionais especializados e peça ajuda para explicar a doença para quem está ao seu redor e como elas podem te ajudar. Mas não deixe de procurar ajuda, ok?

E não é algo da moda, desvio de caráter, frescura ou coisa de adolescente. É algo sério e precisa ser tratado com atenção e acolhimento.

Espero ter ajudado! Para ler mais, recomendo o texto da Marina Maria :

https://medium.com/@marinamariabr/precisamos-falar-mais-sobre-compuls%C3%A3o-alimentar-aabe8a756cc5 (ele ainda está escrito com os diagnósticos do DSM antigo, por isso ela o chama de TCAP e não de TCA)

A entrevista do Dr. Eduardo Aratangy com a Daiana Garbin - https://www.youtube.com/watch?v=U6AAoMAOaFA