Eu acho que nunca vou conseguir emagrecer

Muita gente quer estabelecer uma boa relação com a comida. Só que, na maioria das vezes, esse desejo vem com frases do tipo: “Mas tem como fazer isso e emagrecer? Dá pra diminuir minhas compulsões e perder peso? Porque eu preciso muito emagrecer. Questão de estética, mas também de saúde, sabe?”.

Bem, eu não posso afirmar. Porque não sei o dia de amanhã, depende muito do protagonismo e da entrega do paciente no tratamento (nada fácil, mas super possível) e, sobretudo, depende do metabolismo de cada um.

 imagem retirada do pinterest

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Se eu fosse chutar um número, diria que 95% das pessoas que tem uma queixa similar a essa aí em cima, passaram por várias dietas. Várias. Tomaram remédios e fizeram as restrições mais absurdas, as vezes até as duas coisas juntas. Por isso eu nunca sei dizer se vai rolar um emagrecimento no processo de ‘fazer as pazes com a comida'. Porque o vai e vem do peso causado por restrições e permissões podem causar danos irreparáveis ao metabolismo.

Dietas restritivas são aquelas que reduzem o consumo alimentar a valores calóricos muito baixos. Nós não contamos calorias, mas vou tentar explicar. Nós temos um gasto calórico que dá conta das nossas funções diárias e de manter o nosso corpo em movimento (coração batendo, pulmão funcionando, etc). Chamamos esse valor de metabolismo basal.

Suponhamos que você tem um gasto energético basal de 1800 kcal/dia. Ou seja: você precisa de 1800 kcal diárias pra se manter vivo, por aí. Você julga estar acima do peso, então decide fazer uma dieta restritiva. Corre pra nutricionista/médico/centro de emagrecimento e inicia uma dieta de 1000 kcal, ou seja, só poderá consumir 1000 kcal/dia. Mas esse valor (1000) é menor do que o necessário para se manter vivo (1800). Você começa a perder peso, mas seu corpo, assustado com a privação, começa a te colocar num modo de ‘stand by’, e tenta, através de vários mecanismos, fazer você parar de gastar tanta energia basal. Isso é o famoso “reduzir o metabolismo”. Então se antes só pra se manter aí vivinho da silva você gastava 1800 kcal/dia, começa a gastar 1500 kcal/dia.

Daí você perde peso com a dieta mas, quando a restrição acaba, volta a consumir o que estava habituado - que era, via de regra, pelo menos equivalente ao gasto. Ora, seu corpo não te avisa que agora ele só precisa de 1500kcal/dia pra te manter vivo - então você volta a comer o equivalente de antes da dieta, 1800 kcal/dia. Ganha peso - mais ainda do que o peso antigo, fica insatisfeito e entra de novo em outra restrição. Que faz seu metabolismo se reduzir novamente.

Esses números são fictícios, mas demonstram o que ocorre com quem passou a vida inteira no ciclo restrição - permissão. Não são só as estruturas emocionais, afetivas e psicológicas com a comida que ficam abaladas: nosso metabolismo VIVE em modo de espera, tentando gastar o mínimo, já que você, por muito tempo, tentou ofertar o mínimo pra ele.

Vários estudos sugerem que essa redução do metabolismo basal não é reversível. Ou seja: se você fez dietas por muitos anos, provavelmente teve esse valor alterado não provisoriamente, mas sim permanentemente.

E talvez seja por isso que você não consegue emagrecer do jeito que espera. Triste notícia? Sim e não. Sim porque é algo que não dá pra consertar. Você pode fazer bastante atividade física e melhorar seu metabolismo, fazer as pazes com a comida e cessar o binômio restrição/compulsão e até reduzir o peso. Mas ficar no peso que você tentou lá no começo, talvez não seja possível.

Outro fato importante: para quem consegue emagrecer, é importante lembrar que o peso na balança pode ser um traidor! Algumas pessoas reduzem gordura corporal e ganham massa magra, alterando pouco o peso da balança, criando uma insatisfação infundada que empurra, novamente, para as dietas restritivas.

ALÉM DO METABOLISMO

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E não só por causa do metabolismo você não consiga emagrecer, mas também porque existe uma grande chance de você estar correndo atrás de um corpo que não é compatível com o seu biotipo e estilo de vida.

Talvez lá aquela primeira vez que você tentou emagrecer você já estivesse correndo atrás de algo que não te pertence. Não por falta de capacidade sua, mas por uma simples questão biológica: nossos corpos são diferentes, e muitas vezes não conseguimos ter o corpo do nosso sonho com alimentação e exercício - mudar a forma do corpo demanda outra genética, e para isso, só nascendo de novo.

Vejo muitas pessoas que decidem se entregar na busca de uma boa relação com a alimentação e de fato, começam a perder peso. Porém mantém a ansiedade de chegar naquele ponto lá no fundo, na luz do fim do túnel que não chega jamais. Aí, abandonam erroneamente o tratamento, voltam para o processo restrição/permissão e engordam de novo. Se sentem incapazes e frustrados, acreditando que estão fadados a engordar até explodir.

Eu sempre deixo muito claro que NÃO SEI o quanto ou se a pessoa pode perder peso num processo de comer de maneira mais consciente e intuitiva. Prever o futuro não é o meu forte. Mas sei dizer que, via de regra, as pessoas ganham ou mantém peso no começo e depois tem uma adequação interessante, chegando a reduzir entre 5 e 10% do peso total - quantidade sugerida para melhorar parâmetros bioquímicos e que apontam uma maior chance na manutenção do peso.

Mas também há casos variados: pessoas que simplesmente enxergam que saúde e felicidade não estão vinculadas aquele número e seguem somente focadas numa alimentação equilibrada, pessoas que ganham peso, pessoas que perdem bastante peso… É muito relativo e variável.

O que acho importante é reduzir o peso do fardo de emagrecer, e não da balança. Muitas vezes um número e só um número, e posso afirmar que quando estamos comendo sem aquela pressão de saber se está certo ou errado, a auto estima é muito mais palpável do que quando estamos com um corpo magro, porém numa dieta rígida.

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Não vejo problema algum em querer emagrecer. Muito pelo contrário: eu entendo, acolho e ajudo nessa decisão. Mas gosto sempre de mostrar quantos processos - mutáveis ou imutáveis - uma pessoa que passou anos de dieta precisa ultrapassar para atingir uma perda de peso saudável e pacífica. E também é super importante lembrar que, em termos de saúde, os estudos tem demonstrado que é muito mais efetivo se manter num peso do que se submeter a ‘sanfona’ da balança.

Garanto a você que, melhor do que se afundar na autocomiseração do ‘eu sou um gordo sem vergonha que nunca vai conseguir emagrecer’, é focar numa alimentação que preenche de maneira positiva, tantos os espaços físicos quanto os emocionais. Não é fácil, mas vale a pena.

Por qual caminho você tentará ir?

Até a próxima.

Marina