Gordofobia Médica

Quando me formei, comecei minha vida no consultório de um médico que tinha uma idéia diferente da que eu tinha sobre obesidade. Me formei na faculdade de nutrição junto com centenas de outras nutricionistas que acreditavam (e várias ainda acreditam) que para emagrecer bastava ‘fechar a boca’ e que ‘todo gordo é assim por preguiça/falta de vontade/etc’.

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Eu também acreditava que todo gordo mentia no consultório - lembrando que aqui não uso a palavra ‘gordo’ como algo pejorativo, mas como uma característica/condição física. Aquele papo de ‘eu como pouco e mesmo assim não emagreço’ não tinha uma razão para mim.

Então, por sorte, fui trabalhar com o Dr. Mauro Kleber. Eu atendia os pacientes que ele me encaminhava, e algumas vezes conversávamos sobre os casos. Em momento algum ele me doutrinava a passar uma dieta restritiva, com contagem calórica ou um monte de linhaça dourada (tendência na época). Como eu passei a vida ilesa a esse modus operandi de alimentação, foi fácil. E prazeroso.

Hoje, olhando para trás, vejo que foi aí que comecei a entender a obesidade como uma condição era multifatorial que independe de 'força de vontade' para não existtir. A cada paciente que eu conseguia ver a melhorar na alimentação sem apelar para as dietas da moda, era uma vitória. Na época também, comecei a escrever no blog desse mesmo médico, o Batata Frita Pode.

Depois de um tempo me mudei para São Paulo e fui do céu ao inferno em poucos meses: trabalhei com um médico que fazia piadas de extremo mau gosto. Na época era esse o nome que eu dava, só depois fui me tocar que o termo certo para aqueles comentários era gordofobia.

Dentre as diversas piadinhas, algumas eram clássicas: dizer pra paciente só subir com uma perna na balança, pois se subisse com as duas pernas a balança quebraria; ou perguntar se o marido tinha ‘descendência turca’, pois ‘turcos gostam de mulher gorda’. Duro né? Na época eu não podia fazer muito a respeito disso, só pensar sobre o quão machistas e preconceituosas eram essas frases - e virar os olhos para os diversos modismos que ele tentava aplicar e eu solenemente fazia cara de paisagem e seguia na minha forma de pensar.

Vendo aquilo tudo acontecendo e sem ter muito o que fazer, comecei esse blog que vos fala, estudando sobre aqueles absurdos e concluindo aquilo que eu já desconfiava: obesidade (ou sobrepeso, ou excesso de peso) é algo muito delicado para se tratar com força, foco, fé e dietas da moda. E nunca, jamais, pode ser motivo de piada.

Com o tempo, escutei histórias bizarras dos meus pacientes. Experiências do pior tipo. Gente que foi ao dermatologista falar sobre coceiras em regiões íntimas e não foram examinados porque o médico já colocou a culpa do excesso de peso, queixas de pessoas que sofriam com ansiedade mas foram aconselhadas pelo psiquiatra a procurar uma nutricionista pois emagrecer resolveria, e milhares do caso clássico: quem vai ao endocrinologista/clínico fazer controle de exames tireoidianos/gerais e são convencidos de que um remédio para emagrecer iria bem, afinal, ‘quem não quer emagrecer né?'.

Além disso, já soube de uma pessoa com transtorno alimentar grave escutar a nutricionista falar que a paciente era sortuda, com a seguinte justificativa da a ela: ‘todo mundo quer ser magra como você'. Sem falar na quantidade enorme de médicos/nutricionistas que, antes mesmo de ouvir o paciente, já soltam o velho: ‘veio pra emagrecer, né?'.

Gordofobia médica

Um estudo publicado na Obesity Reviews em 2015 levantou evidências demonstrando as percepções negativas dos profissionais de saúde sobre pessoas gordas, e como esses sentimentos podem ter como consequência diagnósticos errados ou tardios, impactando negativamente os resultados destes indivíduos.

Esse mesmo estudo mostrou que aqueles pacientes que enfrentam (ou creem que irão enfrentar) gordofobia médica tendem a procurar menos os serviços de saúde e, quando procuram, tem menos adesão as orientações médicas.

A gordofobia é o preconceito ou intolerância contra pessoas gordas, e pode ser percebida de maneira escancarada ou sutil. Quem nunca ouviu (ou falou) a frase ‘ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda’? Essa frase carrega a ‘confirmação’ de que só pessoas magras são belas, tornando as pessoas gordas em seres, automaticamente, feios.

No consultório médico isso é comum. Pode começar com um comentário, passando pela ausência de instrumentos que podem ser utilizados por pessoas gordas (cadeiras, aparelhos de pressão e balanças) até a ofensas do tipo ‘você não tem conserto mesmo!’.

A justificativa de diversos profissionais é a mesma: uma questão de saúde. A afirmação amplamente divulgada de que obesidade é uma doença crônica e ‘mal do século’ serve, muitas vezes, como alicerce para a gordofobia. Mas o conceito de saúde é maior do que o número do IMC: é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. Visto isso, colocar um indivíduo obeso sob julgamento gordofóbico, é aproximá-lo do mal estar psicológico e social, e não da sanidade.

É inegável que o excesso de peso pode aumentar o risco de diversas doenças . Porém, atenção: ‘poder aumentar’ não é uma certeza absoluta de que isso irá acontecer. Existem dezenas de milhares de pessoas com sobrepeso ou obesidade que estão a pleno vapor, se alimentando muito bem, longe do sedentarismo e vivendo uma vida perfeita. E existem centenas de milhares de pessoas que são/estão gordas não por ‘falta de vergonha na cara', mas sim pelos mais diversos motivos: transtornos alimentares (como a bulimia e o transtorno da compulsão alimentar), problemas psiquiátricos (de todos os tipos), fisiológicos (metabólicos, genéticos e outros), etc, etc, etc.

Além disso, sabemos que há uma crescente população - cada vez mais nova - com transtornos alimentares. Esses indivíduos podem ter o corpo magro, serem julgados como saudáveis e, na verdade, padecerem de uma grave doença.

Sugiro que dêem uma olhada nesse diagrama, que mostra as possíveis razões para obesidade

Falta de cuidado

Algo muito comum é se referir a pessoa gorda como ‘ela não se cuida’. Mas o que é ‘se cuidar?’. Tomar banho, pentear o cabelo, escovar os dentes, estudar, comprar roupas novas, manter o ambiente de trabalho e a casa limpos, fazer atividade física… tudo isso é cuidado. O gordo não é ‘desleixado’. Ele não ‘se largou’. Ele é uma pessoa como qualquer outra que, por algum motivo, tem um formato de corpo maior do que outra pessoa que faz as mesmíssimas coisas que ele.

O que o profissional de saúde pode fazer?

  • Escutar, muito. E sempre. Ao invés de supor ou transferir seus próprios desejos para o paciente, ele deve ouvir com calma as angústias de cada um.

  • Estudar sobre obesidade e comportamento humano também ajuda bastante. Você não precisa ser expert no assunto, mas começar a procurar informações que vão além do seu viés de olhar já é um excelente começo.

  • Entender que uma pessoa pode sim emagrecer, mas que isso é muito diferente de tornar-se magra.

  • Reavaliar o uso do IMC como medida oficial de peso corporal. O IMC já é discutido há muito tempo como uma ferramenta ineficaz na prática clínica.

  • Analisar (com ajuda terapêutica, preferencialmente) suas angústias, valores e olhares sobre o corpo humano. Talvez sua necessidade ou furor para ver o outro magro é, na verdade, um reflexo daquilo que você considera um sucesso.

  • Criar um espaço físico onde seu paciente se sinta confortável: cadeiras, balanças e aparelhos médicos compatíveis com maiores tamanhos de corpos.

  • Estudar (nem que seja brevemente) o impacto biológico e psicológico de dietas restritivas. Resumindo: entender sobre transtornos alimentares.

Mas eu realmente estou doente, e aí?

Se você tem excesso de peso e está adoecido, e o excesso de peso pode ter colaborado para essa condição, sugiro seguir o tratamento. Procure um médico/nutricionista que estão dispostos a te tratar com seriedade, e não te transformar num case de sucesso para postar sua foto de antes e depois nas redes sociais. Fuja de tratamentos promissores demais, metas que consideram grandes perdas de peso em curtos espaços de tempo. Em alguns casos, medicações são recomendadas. Pergunte, questione.

Você pode se beneficiar muito de ajuda profissional. E se você já sofreu algum tipo de preconceito e se sentiu prejudicado, recorra ao conselho do seu estado/cidade. Mas não desista nunca de procurar ajuda caso você julgue necessário!

Até a próxima!

Marina