Como pensar na velhice tem me deixado mais feliz

Estou assistindo a série Grace and Frankie no Netflix e invejando aquelas mulheres. Sei que é uma ficção, mas aquelas interpretações tem vitalidade, conhecimento, e uma beleza que ultrapassa o plano estético. Eu fico realmente admirada! Com a série ainda não terminada (então por favor, sem spoiler), eu tenho pensado muito sobre essa questão idade.

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Na verdade, antes mesmo de eu me debruçar sobre a série, o passar dos anos tem me instigado há um tempo. Depois de fazer 30 anos eu comecei a perceber que esse lance da idade pode ser muito cruel, ou muito delicioso, depende do que você espera da velhice.

Eu tive muita vontade de fazer 30 anos, mas também muito medo. Achava que a idade tinha aquele lance de ‘agora já era, você virou adulta, não tem mais 20 e poucos anos’. E realmente você não tem mais 20 e poucos anos, mas isso não necessariamente é ruim! Poucas pessoas tinham me contado é que ser adulto é bom demais e o discurso dos 30 anos era mais carregado de fatalismo.

E depois que os 30 passaram e vieram os 31, 32 e agora 33, eu tenho observado mais a velhice. Eu vejo mudanças positivas nas mulheres que atendo no consultório. De 30, 40, 50, 60… cada década ou ano que passo, parece que tudo fica mais fácil, mais calmo, mais certo. O problema é quando a gente não consegue perceber isso porque ficamos presas nas cobranças estéticas.

Parece que cada ano que passa as pessoas querem se parecer mais novas, e pra alcançar isso, dá-lhe botox, dieta e remédio sem indicação. A pele não pode ter manchas ou rugas, o peito tem que ser duríssimo, e os fios de cabelo branco são severamente escondidos, ao preço de transformar um cabelo preto tipo índia Potira em loira do tchan versão século XXI.

 Jane Fonda, na época que tinha transtornos alimentares.

Jane Fonda, na época que tinha transtornos alimentares.

Será que ninguém pensa que essas intervenções não vão enganar o passar do tempo? E que quando o tempo passar, a vida vai continuar existindo? Com mais cansaço e piores ressacas, sem dúvida alguma, mas a vida vai estar lá, prontíssima pra ser curtida. Porque vida não é coisa de gente jovem, vida é coisa de ser humano. E na hora que todo mundo chegar lá na frente, não vai ter cirurgia plástica de engane o metabolismo, a pele ou a menopausa. Na verdade, vai ter uma pessoa pensando em todas as privações que fez na juventude, sejam elas de alimentos, vida social ou de momentos que podiam ser vividos mas que foram roubados pelas restrições de cada época.

Jane Fonda, que interpreta Grace na série, tem 80 anos atualmente. Aos 63 revelou que sofreu durante 25 anos com transtornos alimentares, ou seja, quase metade da sua vida em guerra com a comida e com o corpo. Vendo ela cheia de vida e talento, confirmando a quinta temporada de uma série sucesso, dá pra pensar que existe vida e força lá na frente, perto mesmo da linha de chegada (ou porta de saída?).

Observar mulheres mais velhas, mais sábias, mais vividas, mais elegantes, me faz desejar que cada ano seja melhor. Olhar pra o passar dos naos tem me deixado mais animada para chegar nos meus 60, 70, 80, 90 ou 100 com muita disposição e histórias pra contar. Hoje eu penso em atividade física para tornar meu corpo mais funcional, para que eu possa ser uma velhinha que viaja muito, carrega a sacola de compras do supermercado e não precisa de ajuda para amarrar um sapato. Eu penso em alimentação não só para obter longevidade, mas também pra acumular receitas e construir tradições em volta da mesa. Isso me dá mais gás pra viver e menos medo do passar dos anos.

Minha sugestão é que entenda que nosso corpo muda, o tempo todo. E que você troque o medo de envelhecer pelo medo de chegar na velhice arrependida de todas as restrições sem sentido que fez na vida: de comida, de vida social, do verão de biquíni na praia, do bolo de chocolate da festa da sua melhor amiga.

Perdemos o colágeno mas ganhamos coragem para nos tornarmos donas de nós mesmas!