A roupa da alma

Eu passei minha infância e pedaço da adolescência visitando a cidade da minha avó nos feriados, alguns finais de semana e muitas férias. Ibertioga é uma cidade de 5 mil habitantes no interior de Minas, onde meu pai cresceu.

Desde aquela época a vizinhança da minha avó se manteve basicamente a mesma. Numa das casas, mora a Elaine. A Elaine é uma moça super simpática que me conhece desde pequena. Há pouco tempo ficamos amigas no facebook, e desde então virei verdadeira fã das suas frases e reflexões por lá.

Dia desses ela postou essa frase linda, numa reflexão que fez no meio de um jardim de cactos. Aquilo mexeu comigo de uma certa forma, porque frases de efeito, na maioria das vezes, me dão preguiça. Mas essa fez sentido - e me fez pensar.

Na terra da internet, as it-girls viraram blogueiras, que viraram instagramers e agora são influenciadoras. Mas na verdade, a influência delas sempre foi grande sob a maioria, mesmo antes de receberem o adjetivo adequado.

São mulheres e meninas talentosas, bonitas (e magras, na grande maioria), que tem acesso as viagens mais legais, aos eventos mais desejados com as roupas mais descoladas. Todo mundo rola o dedo no instagram se inspirando, clicando, comprando ou apenas desejando.

Um dia desses, conversando com uma paciente, ela me contou que, em terapia, chegou a conclusão que as questões dela não estavam no tamanho do corpo ou na imagem que ela via refletida no espelho. A tristeza estava em nunca conseguir estar como as influenciadoras da internet. A cada mulher nova que ela seguia, era uma idéia nova pra se vestir e, com seu armário também recheado de peças legais, ela montava um look inspirado naquele. Se não tivesse uma peça, dava um clique e comprava.

Mas nunca estava bom.

 Do pinterest: Garotas felizes são as mais bonitas

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Nunca se achava o bastante pelo fato de ela e as meninas do instagram serem diferentes. Ela se vestia não se inspirando, mas transpirando, querendo a igualdade, e não a semelhança. Depois de tanto gastar, suar e se entristecer, percebeu que ela e as influenciadoras são pessoas com atividades diferentes, objetivos diferentes e, mais recentemente, idéias políticas diferentes.

Parece fácil falar que não somos as mesmas pessoas. Mas na hora que estamos ali, absortas no mundo do instagram, somos bombardeadas de informações que, de uma forma ou de outra, trançam uma rede de desejos que podem enriquecer ou frustrar nossas vidas.

Quando vi as fotos do cacto, lembrei da fala da minha paciente. Acho que todas nós já ou ainda passamos pela fase de se inspirar no mundo das influenciadoras. Eu já fui a seguidora de carteirinha, seguia todo mundo! E também percebi que nunca ficava satisfeita: enchia meu armário de peças de roupas mas na hora de vestir nada ficava bom, enchia meu armário de maquiagem que eu não conseguia usar na minha rotina. Foi muito tempo até perceber que o problema não era comigo: era com a maneira que aproveitava aquelas informações. No início, rolou um unfollow terapêutico geral, e minha auto estima e meu bolso agradeceram. Depois consegui encontrar o meio termo, mas volta e meio faço uma avaliação se não estou sendo influenciada demais, até por quem parece me fazer bem. É só me pegar querendo comprar algo desnecessário que me lembro daquela época que aguardava ansiosamente pelo lançamento do tênis que comprei e nunca usei.

 Iris Apfel: “quando você não se veste como todo mundo, não precisa pensar como todo mundo”

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Eu acho uma delícia se vestir, montar um look, comprar uma roupa nova, entender o que se está usando. Eu acredito que a moda, as roupas, as montações, a vaidade, tudo isso está aí pra ajudar a gente a passar uma mensagem, pra gente se sentir mais segura e empoderada. E se divertir! Mas de nada adianta a gente querer vestir aquele vestido mais bafo se não estamos felizes além disso. Sigo bisbilhotando, observando e seguindo, mas sempre tentando entender se aquilo está me deixando mais feliz ou mais insatisfeita.

Por isso, quando vi essa frase no facebook da minha amiga Elaine, pensei sobre mim, pensei sobre você. Pensei sobre o desejo do jeans 36 ou 38, que mora na fantasia de tantas mulheres. Pensei nas noivas que emagrecem a todo custo pelo vestido branco acinturado. Pensei em todas as vezes que cliquei num link de e-commerce e não pude comprar, em todas as peças que comprei e não usei.

Pensei em como nossa felicidade pode vestir nossa vida, e não o contrário.