Para Vovó Íris

Minha avó acreditava que todo mundo precisava casar. O que eu chamo de todo mundo, claro, são as mulheres. Nascida em 1922, ela já começava a se preocupar com a gente a partir do momento que a gente 'virava mocinha'. 

Minha primeira prima se casou quando eu tinha 15 anos. Ela, 23. Um ano antes minha avó dizia que era uma pena, que ela não ia chegar viva no casamento. Não foi a festa porque não gostava de viajar, mas recebeu o convite e as fotos daquele momento que ela jurou de pé junto que estaria debaixo da terra. Viu essa e outras netas e netos casando.

Depois chegou a fase de dizer que não ia ver nenhum bisneto nascer. Sabe de nada, inocente. Minha avó viu quase 10 bisnetos nascendo, um atrás do outro. Guardava as fotos todas, uma fofura. 

Uma vez terminei um namoro de longa data, e ela veio me falar que estava preocupada, afinal "você já tem quase 30 anos, depois é difícil demais casar!". Eu tinha 26. Mal sabia ela que casamento estava fora dos meus planos por um bom período. Mas claro que dava aquele medinho, afinal, a Vó era bem íntima de Deus e eu que não queria aquela praguinha cristã pra cima do meu destino incerto. 

 Vovó Íris, sempre alegre na nossa chegada

Vovó Íris, sempre alegre na nossa chegada

(Fenda no tempo. Corta pra 2014, quando minha prima Tatá começou a namorar um cara. Mostrou a foto dele pra vovó, que disse que ele era muito bonito "porque parece com Jesus Cristo".)

Volta para 2015, a última vez que vi minha avó e eu estava com 30 anos. Livre, leve e solta, feliz da vida na minha vidinha ora na balada, ora em casa descansando pra próxima. Ela me perguntou se eu estava namorando e com quantos anos eu estava, e ao dar a resposta, ela soltou aquelas frases lúcidas, que parecem antecipar uma outra frase equivocada: "as vezes é mesmo melhor ficar solteira do que num casamento infeliz".

MInha avó Íris, que colocou no dedo a aliança do vovô depois que ele foi, que vivia querendo morrer pra encontrá-lo, estava lá nos seus últimos dias de vida me falando o que eu já sabia - mas que é sempre muito bom ouvir alguém reafirmando. 

(E lógico que logo depois veio a pérola 'só hoje em dia é diferente. As mulheres não são mais iguais. A maioria não sabe nem cozinhar e blá-blá-blá').
Pois é Vó. Mas eu aprendi a cozinhar, e muito bem, diga-se de passagem. E me casei! Sua praguinha de avó beata não me pegou! 

 O livro de receitas da Vó Íris

O livro de receitas da Vó Íris

Você não está aqui, mas do jeito que é danada está lendo isso e sabe que agora as mulheres se casam (ou não) em qualquer idade porque  isso não importa. E que a gente fica num relacionamento porque gosta, e não porque sabe cozinhar. 

Eu puxei sua mexeriquice e fui fuçar no seu livro de receitas antigo. Não me lembro de muitas coisas que você preparava, mas lembro da comida da sua casa. Do intervalo de duas horas entre cada refeição e sua insistência para que a gente comesse. Da broa, do polvilho, e até de coisas que eu não gostava, como o salpicão misturado com 289 ingredientes. 

Por isso resolvi preparar e divulgar algumas receitas desse caderno tão bem escrito. Quem vai aproveitar isso tudo não sou só eu e os leitores do blog, mas também o Gui, meu marido. Olha só Vó! O mundo dá voltas e no final das contas eu estou fazendo o que você sempre recomendou: cozinhando para e com muito amor. 

Com carinho,

Beijos da sua neta Marina