Raspando o prato

raspandooprato1.jpg

Todo mundo aprendeu a não deixar comida no prato porque "tem criança passando fome e você desperdiçando...". Fomos educados a não jogar comida fora, a não desperdiçar. Quando 'raspamos o prato' somos aplaudidos, porque comemos tudo... 'parabéns!!!'. Educar as crianças para a importância de não desperdiçar é excelente. Isso faz parte da consciência alimentar e de cidadania. E entendemos a necessidade que algumas mães tem em insistir que a criança coma. Porém, traz alguns pontos importantes quando crescemos e nos propomos a fazer reeducação alimentar.

Muitas pessoas me falam no consultório que tem dificuldade de encontrar o ponto da saciedade. Não sabem quando estão saciadas, só percebem quando terminaram o prato e estão extremamente cheias. Outras afirmam que até percebem que ficam saciadas antes mesmo da refeição acabar, mas comem o prato todo, porque não gostam de deixar nada sobrar no prato.

Investigando os hábitos alimentares da infância (e da família) de cada pessoa, posso afirmar que a maioria foi educado a não desperdiçar. O que é excelente, são pessoas que de certa forma se responsabilizam pelo desperdício. Só que essa discussão tem outros lados.

Terminar o prato pela simples obrigação de não desperdiçar pode ser um grande obstáculo para quem quer perder peso ou (re)conhecer o ponto da saciedade: comer o prato inteiro por obrigação e não para saciar pode não ser uma boa idéia.

Entendendo o desperdício

Segundo a FAO, 1,3 bilhão de toneladas de alimento são desperdiçadas anualmente. Desse 1,3 bilhão, 10% do desperdício se dá no campo, 50% no manuseio e transporte, 30% no comércio e abastecimento e 10% no varejo e consumidor final. Somos responsáveis, mas não estamos sozinhos. Se a gente está comendo o prato todo porque realmente está sensibilizado com o desperdício de comida mundial, vamos procurar fazer algo para minimizar as outras etapas do desperdício também. Os sites da Akatu e do Banco de Alimentos são interessantíssimos e valem a visita.

Tão importante quanto não desperdiçar, é entender o quanto a gente deve colocar no prato. Temos o costume de servir um montão, só pra antecipar nossa saciedade: "coloco mais porque fico com medo de sentir fome". A gente não precisa ter medo de sentir fome, a gente precisa aprender a comer no tamanho dela.

"Ah Marina, mas e se eu sentir fome?". Você come. Simples assim. Você não precisa repetir a mesma quantidade que colocou na primeira vez que serviu - sua fome está diferente. Basta servir mais um pouquinho. Com o tempo, você vai encontrar uma média de consumo que vai te direcionar para uma alimentação equilibrada e sem desperdício. Já escrevi sobre o medo da fome nesse texto aqui

Na hora do prato

Não é mais e nem menos, é a quantidade suficiente. Pra não deixar no prato e não passar fome, vamos reduzindo aos poucos a quantidade habitual. Se hoje você se serve com 500g, comece a colocar 450g. Depois, 400g. Em algum momento você vai achar a quantidade que te satisfaz.

Falando em linhas gerais, é não comer com os olhos, mas sim com o estômago. Se a gente escolhe sem pensar, acaba exagerando - e se obrigando a comer tudo, mesmo que esse tudo seja muito.

Na hora da cozinha

Uma outra causa do desperdício/exagero de consumo é a maneira como cozinhamos. Adoramos cozinhar aquele montão de comida: nossas panelas são enormes, as mesas são cheias, servimos dezenas de pratos juntos. Somos um povo que adora comer e repete o lema 'melhor sobrar do que faltar'. Mas nesse ritmo vamos consumindo bem mais que a gente precisa. Pra fomentar esse comportamento, ainda temos porções cada vez maiores nos supermercados, mas com famílias cada vez menores (e um crescente número de pessoas que vivem sozinhas).

raspandooprato3.jpg

Como fazer?

É aí que a análise do comportamento alimentar e a prescrição alimentar se encontram. O nutricionista tem o papel de entender as demandas e ajudar cada paciente a encontrar seu objetivo sem precisar prescrever uma dieta super restritiva e com poucas opções: mas ele pode prescrever um consumo consciente, dentro das demandas energéticas necessárias e respeitando todas as outras questões discutidas durante o tratamento.

As quantidades são sugeridas de uma maneira que a pessoa não fique escrava daquilo. Por exemplo: se o nutricionista recomenda que você consuma 4 a 5 colheres de arroz, isso não significa que você não pode colocar mais se aquilo não for suficiente, e nem menos que aquilo se você estiver com fome. Essa é uma quantidade média de consumo, na qual o profissional pode sugerir sem medo do paciente se restringir demais e de acordo com os objetivos dele (ex: perder peso, ganhar massa ou simplesmente encontrar o ponto da saciedade).

A prescrição também ajuda muito na hora de cozinhar: com uma média de consumo sugerida, fica mais fácil calcular o quanto cozinhar. Deu medo de ser pouco? Não precisa fazer o dobro, faça um pouco a mais. 

Vale o esforço e o treinamento. Vale mais ainda quebrar alguns paradigmas que, apesar de importantes para nossa educação, falham em alguns momentos.

Com o tempo a gente aprende a nossa quantidade, e automaticamente consegue 'raspar o prato' sem desperdiçar e sem exagerar!

Até a próxima!

Marina