A velha calça desbotada (ou coisa assim)

A velha calça desbotada (ou coisa assim)

Sexta feira fiz duas enquetes no meu instagram: 'você guarda roupas da época que tinha um peso/formato de corpo diferente na esperança de usá-las um dia?' e 'você que está tentando ou pretende emagrecer está guardando suas roupas antigas esperando que use essas roupas novamente?'. 

O resultado vocês já podem imaginar: a grande maioria disse que sim.

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Porque "você emagreceu!" não deveria ser um elogio

Porque "você emagreceu!" não deveria ser um elogio

"Nossa, parabéns! Emagreceu!" ou "Nossa, ela tá linda, emagreceu... uma beleza!". Sei que estamos habituados a ouvir ou falar isso. Existe até uma piadinha (de muito mau gosto, diga-se de passagem) na internet que diz "quem acha 'eu te amo!' a melhor coisa de ouvir nunca escutou um 'como você emagreceu!'". 

Porém, seguimos elogiando a magreza. Nos perfis de instagram é tão fácil ler um 'lindaaaaa' quanto um 'magraaaaaaaaa'. Como se magra e linda fossem sinônimos.

E sejamos francos, não é tão simples assim. Você não vai parar de vincular emagrecimento ao elogio de maneira automática. Mas vale muito fazer um exercício para mudar isso.

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Ser real para (se) amar legal

É de manhã, tomo meu café, e dou um check nas redes sociais. Nada de novo no mundo do instagram: meninas lindas e produzidas comprando o último must have da estação; semi-nuas e saradas sugerindo que você vá malhar logo, tomando o bulletproof coffe (ou qualquer alimento da última moda); e mulheres 'empoderadas' (sei lá se gosto desse termo) falando para você: "se ame, se goste!". Você pode até achar que essa última se diferencia das duas primeiras. E de fato, há uma diferença na mensagem. A 'empoderada' nega o TER - porém, pratica o SER. A obrigação existe nos três discursos.

Há um tempo venho notando que o movimento Body Positivity muitas vezes pode beirar a obrigação, e me questiono se esse realmente é o caminho. Depois de rolar o dedo na tela do meu iphone pela terceira vez no dia, concluo que não.

Muito se fala sobre amar o corpo que temos. Mas será que essa ordem não faz justamente o contrário do que deveria ser feito? A idéia é fazer com que o corpo não seja o centro de tudo ou o motor de uma mudança de hábitos ou de estética - isso tem que vir de dentro. Ordenando ou sugerindo para que você se ame mais e mais, o corpo  continua ali, o centro dessa obrigação.

Pode ser que muitas mensagens não envolvam somente o 'se ame' físico. Mas mensagens como 'você é importante, você é linda, você pode, você etc' também dão um nó na minha cabeça. Será que o caminho do tal amor próprio tem mesmo que ser pavimentado com tantas imposições?

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Mas e a realidade?

O movimento Body Positive tem uma importância imensa, porque grande parte do propósito é baseado na desconstrução do corpo perfeito - passo essencial para o resgate da auto aceitação e do auto conhecimento. Mas me pergunto onde fica a nossa realidade. Afinal, somos seres imperfeitos, e tem dias que a não há santo que nos prove que somos capazes, fortes e lindas (por dentro e/ou por fora). Sinto falta de um discurso humano, um 'vem aqui, é assim mesmo, tem dias que é f*da'.

Somos únicas e únicos. Somos importantes. Mas também somos seres de carne e osso, que as vezes ficamos chateados com o menor dos problemas - e sim, muitas vezes com a nossa própria aparência.

O que sinto hoje com toda essa campanha do 'love/embrace yourself' é que algumas pessoas ficam totalmente perdidas e frustradas, porque não conseguem se sentir tão importantes como está sendo sugerido. Ou não conseguem se amar. E principalmente, se sentem envergonhadas perante suas naturais chateações: mais uma vez incapaz.

Li uma frase interessantíssima de um texto: "Ao invés da gente se sentir menos mal porque tem celulite, sentimos vergonha por não gostar da celulite". Ou seja: apenas mudamos de problema. Se antes o problema era não conseguir aceitar a celulite, agora é não conseguir aceitar nossa insatisfação.

Conforto, neutralidade e naturalidade.

Concordo e apoio a idéia do Body Positve - e todas as mensagens de amor próprio espalhadas por aí. Mas o termo - e o conceito - do Body Neutrality fala mais a minha língua.

A idéia é tirar o corpo do centro da discussão, reduzir a pressão do 'você tem que se amar' e levantar outras questões. Até porque, amor próprio não é aquela coisa de ser importante, linda, feliz e essencial o tempo todo: amor próprio é justamente se entender, se aceitar. Melhor do que o termo 'amor próprio', eu prefiro o termo 'respeito próprio'.

"A obrigação de amar o próprio corpo não deve ser um antídoto contra o ódio" - Anastasia Amour

Querer se amar a todo custo não funciona sem antes entender que somos seres humanos cheios de realidade. Todos nós temos fragilidades e capacidades individuais, muitas mutáveis, outras permanentes. Precisamos, antes do amor próprio, de boas doses de naturalidade e neutralidade.

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Se sentir confortável com o próprio corpo não quer dizer apenas amar a imagem no espelho e não lutar por um padrão inatingível de beleza. É também se sentir confortável com as insatisfações que nos rondam. Você não está feliz com algo - e a escolha de mudar não é pautada nas observações externas? Vá em frente! Você pode tentar mudar. E também tem a opção de simplesmente entender que aquilo ali te deixa meio p* da vida de vez em quando.

A neutralidade das nossas atitudes e sentimentos perante nosso corpo, ao meu ver, é muito mais importante e impactante do que a repetição da boca pra fora de frases como "se ame".

Espero que tenham gostado!

Leia mais em:

http://www.modefica.com.br/4-problemas-escondidos-por-tras-do-discurso-ame-seu-corpo/#.WPUm2bvytKM

http://www.manrepeller.com/2017/03/body-neutrality-movement.html

http://nymag.com/thecut/2017/03/forget-body-positivity-how-about-body-neutrality.html