Eu acho que nunca vou conseguir emagrecer

Eu acho que nunca vou conseguir emagrecer

Muita gente quer estabelecer uma boa relação com a comida. Só que, na maioria das vezes, esse desejo vem com frases do tipo: “Mas tem como fazer isso e emagrecer? Dá pra diminuir minhas compulsões e perder peso? Porque eu preciso muito emagrecer. Questão de estética, mas também de saúde, sabe?”.

Bem, eu não posso afirmar. Porque não sei o dia de amanhã, depende muito do protagonismo e da entrega do paciente no tratamento (nada fácil, mas super possível) e, sobretudo, depende do metabolismo de cada um.

Se eu fosse chutar um número, diria que 95% das pessoas que tem uma queixa similar a essa aí em cima, passaram por várias dietas. Várias. Tomaram remédios e fizeram as restrições mais absurdas, as vezes até as duas coisas juntas. Por isso eu nunca sei dizer se vai rolar um emagrecimento no processo de ‘fazer as pazes com a comida'. Porque o vai e vem do peso causado por restrições e permissões podem causar danos irreparáveis ao metabolismo.

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Desafio

Desafio

Quando decidi escrever sobre esse tema, joguei no google “Desafio sem doce", e lá estavam vários links para reportagens diversas sobre o tema. A primeira delas me chamou a atenção; a autora escreveu: “O que aconteceu quando topei o desafio de ficar uma semana sem ingerir açúcar”. Fui lá ver o que havia acontecido com ela e tudo o que eu li foi o suficiente para me inspirar nesse texto.

Eu não sei de onde surgiu a idéia de fazer um ‘desafio’ de ficar sem comer algo. 30 dias sem açúcar, 30 dias sem carne, 30 dias sem refrigerante. Mas isso me remete a idéia da quaresma, período litúrgico de 40 dias que antecede a Páscoa cristã, onde, atualmente, os devotos fazem o sacrifício através da carne, excluindo esta da alimentação diária. Judeus também fazem jejum no dia do Yom Kipur e os muçulmanos do Ramadã. O jejum, independente da crença, marca um período de reflexão, e termina com uma bela refeição.

Além da reflexão, pessoas de várias crenças acreditam que cumprir essas privações fazem parte do perdão, o alívio da eternidade do divino. Cumprir um jejum dá a sensação de estar mais pertinho da garantia do paraíso, de ser uma pessoa mais iluminada e capaz.

Claro que ficar 30 dias sem açúcar, sem carne, sem álcool ou seja lá o que for, na intenção de perda de peso, não nos coloca mais próximo do divino. Mas, em tese, nos deixa longe da tentação. E tentação, tem relação com o pecado - nesse caso, da gula. Esse processo já põe o desafio em xeque: alimentos se tornam anjos e demônios, reforçando a dicotomia da mentalidade de dieta.

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A cultura do mimimi

Quem me acompanha no blog sabe que em 2015 entrei no mundo das corridas. Apesar de ser uma pessoa relativamente ativa (faço várias coisas a pé, de bike, de transporte público), eu nunca fui ligada nos esportes. Só que vivi a experiência da corrida e mesmo com toda a preguiça do mundo, não consigo deixá-la de lado. Eu sei como é a sensação de uma noite de sono após uma manhã de treino, como a minha concentração e disposição melhoram e o papel meditativo que a corrida exerce sobre mim. Isso me faz sempre querer ficar ou voltar.

Em julho do ano passado percorri 21km que jamais imaginei percorrer, e depois, como de costume, dei uma afastada dos treinos. Pela segunda vez faço isso: paro após uma prova importante. No final de 2015 e começo de 2016 também parei, após completar a volta da Pampulha. Mas dessa vez, voltar está sendo diferente

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Da primeira vez eu fiquei nervosa porque quando voltei a correr não dava conta de completar nem 3 km. Meu corpo doía, minha respiração falhava, e eu ia ficando mais cansada e nervosa. Eu queria voltar com tudo, impaciente e arrependida. Logo eu, que vivo orientando as pessoas a serem pacientes e resilientes. Eu pensava muito naquela

cultura do 'no pain, no gain' ou, como eu gosto de chamar, na 'cultura do mimimi'.

Eu não podia ficar de mimimi ou de preguiça. Eu tinha que simplesmente fazer, doa o que (ou quem) doer.

Mas dessa vez está sendo um pouco diferente.

Eu resolvi assumir minha fraqueza

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Eu posso amar a corrida, mas se eu tiver que abrir mão de alguma coisa porque não tô dando conta de fazer tudo que preciso,vou abrir mão da atividade física - por melhor que ela possa ser para mim.

Meu segundo semestre de 2016 foi maravilhoso: eu mudei de casa, mudei de consultório e agora tenho a cachorrinha mais linda do mundo. Minhas prioridades eram outras, e mesmo sabendo que a corrida ia ser só melhor para mim, não encanei.

Fui correndo quando dava, e quando estava realmente afim.

Hoje decidi voltar a correr com mais frequência e consegui correr pouquíssimo. Mas dessa vez, ao contrário da última, não fiquei chateada!

Pensei que é isso aí: logo logo eu tô de volta correndo como sempre - ou como nunca

Durante os 2km pensei sobre essa cultura do mimimi. A gente se sente muito pressionado a querer sempre ter disposição, a não ter fraquezas, a fazer sempre o melhor. É um tal de 'seja maior que a sua maior desculpa' que chega a irritar.

Concordo que quando queremos modificar algo, não podemos sentar e ficar com o famoso mimimi no sofá esperando a solução milagrosa. Mas isso não tem nada a ver com assumir nossas fraquezas.

Tem gente que sofre pra fazer exercício, mas tem um objetivo maior e acaba arrumando uma solução pra deixar esse ato mais prazeroso - apesar de, em alguns dias, simplesmente chutar o balde e se entregar ao endredom.  Algumas pessoas amam comer deliberadamente, mas tem um objetivo maior é tão prazeroso quanto, que decidem se entregar para a reeducação alimentar - apesar de, em vários momentos, se renderem a delicia que é comer um bolo de chocolate.

Você não é fraco, bunda mole ou está com a vida perdida se não tem o pique do seu amigo, blogueira ou parente.

E se for preguiçoso, tudo bem. Aceite sua condição e veja o que pode fazer para melhorá-la (ou aprender a lidar com ela)

A cultura do mimimi nos faz achar que nosso esforço nunca está bom o suficiente. Se você é sedentário, ou se parou um tempo com os treinos, pensa que recomeçar indo somente 20 minutos pro dia não adianta - e acaba não indo nunca. Se você quer emagrecer mas não segue uma alimentação lowcarb-glutenfree-lacfree-orgânica-integral-sugarfree, pensa não está fazendo o suficiente - e jamais emplaca uma mudança de hábitos.

Eu estou aprendendo dia após dia com as minhas vulnerabilidades e fraquezas. E vejo que isso é maravilhoso,

me torna mais humana e mais dona de mim

. Começar, retomar e continuar pode ser ruim, doer, deixar a gente bem puto da vida. Mas garanto para vocês que o aprendizado vale cada momento de raiva que a gente passa.

Alguém já aprendeu com algum mimimi?

Beijos e até a próxima!

 Marina

(as imagens foram retiradas do google imagens/pinterest)

Dieta alcalina?

"Já tive casos de mulheres que perderam de três a cinco quilos em 15 dias, só de corrigir a alimentação com a dieta alcalina”. Foi pesquisando as loucuras sobre uma das dietas mais non sense que já vi que achei essa informação. Acho que tem gente que nem tem curiosidade de fazer uma dieta alcalina, mas sempre tem aquela pessoa que pergunta se tomar água com limão logo pela manhã realmente faz bem pra saúde... E apesar da gente considerar o limão ‘ácido’, ele está super presente nessa dieta!.

Pra falar de dieta alcalina a gente precisa falar de pH. É um assunto chatinho e precisa ser estudado com cuidado – e talvez por isso tanta gente parece pular essa parte do aprendizado.

O pH é uma escala que mede a acidez das soluções. Um pH igual a 7 é neutro, abaixo de 7 é ácido e acima de 7 é básico (ou alcalino). Nossos fluidos também são ácidos/básicos: o pH do nosso sangue, por exemplo fica entre 7,35 a 7,45. É nessa faixa que há um funcionamento ótimo das proteínas e vários mecanismos do nosso corpo. Qualquer modificação que saia desse intervalo pode causar sérios problemas (acidoses e alcaloses).

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O pH sanguíneo geralmente se modifica devido a problemas graves de saúde, como insuficiência pulmonária, insuficiência renal aguda ou crônica, choques, etc. Para manter nosso pH sanguíneo dentro da faixa saudável, nosso corpo tem vários mecanismos que chamamos sistemas tampões. Nossos pulmões, rins, nosso próprio sangue (as hemoglobinas) e o bicarbonato circulante no nosso corpo tem a função de manter o pH dentro da faixa ótima (7,35 a 7,45). São processos muito refinados e qualquer má funcionamento desses sistemas podem causar problemas seríssimos – levando até a morte.

Mas se nosso pH sanguíneo é orquestrado pelo próprio corpo, porque tentar manipular esses valores?

Os defensores da ‘dieta alcalina’ dizem que as doenças se manifestam em um PH mais ácido. Se alcalinizamos nossa alimentação, podemos alcalinizar o sangue e reduzir a ocorrência dessas doenças: o câncer é uma delas. Eles afirmam que as células cancerígenas não podem viver em um ambiente alcalino, por isso deveríamos alcalinizar o sistema inteiro (mas esqueceram de lembrar que nenhuma das nossas células consegue viver em um ambiente muito alcalino – e nem em ambiente muito ácido. Repitam comigo: somente sob um pH ótimo nosso corpo funciona de maneira orquestrada – e mesmo assim ainda sofremos com doenças multifatoriais (como o câncer).

Mas vamos imaginar então que você ainda não se convenceu e quer mudar seu pH alcalino, e aí você vai comer todos os alimentos alcalinos que encontrar pela internet.

Você come todos esses alimentos e eles chegam no estômago. Lá o pH é bem ácido (entre 1,5 a 3,5) e qualquer alimento que passe por lá chega no intestino com o pH igual (e ácido).

Depois disso a comida chega ao intestino e começa a ser absorvida. Quando os produtos finais da digestão e absorção chegam ao sangue, o sangue está no pH ótimo e é MUITO difícil alterar esse pH.

“Ah, mas medi meu pH urinário, e ele estava alterado”.

O pH da urina varia de acordo com suas refeições e esse sim, está relacionado a dieta. Se você come mais fontes de proteína animal por exemplo, você terá uma urina mais ácida. Isso porque os produtos finais dessa digestão são compostos nitrogenados, acidificando assim a urina. Mas o pH da urina não tem relação nenhuma com nossa acidez sanguínea, mas sim com processos metabólicos e digestivos.

“Conheci uma pessoa que melhorou muito a saúde depois dessa dieta”.

Não tenho dúvidas! Mas melhorar a saúde comendo esses alimentos alcalinos é fácil. Isso porque são produtos mais naturais, menos industrializados e que qualquer pessoa em sã consciência sabe que são mais saudáveis do que os outros.

e mesmo assim encontramos várias discrepâncias entre as listas....

e mesmo assim encontramos várias discrepâncias entre as listas....

Se você ainda não está convencido, faça um exercício: entre nos sites que prometem alimentos alcalinos (ou água alcalina) e observem quanto interesse está envolvido por trás disso. Lembre-se também que a maioria das doenças é multifatorial e sobretudo avalie se você não é muito sugestionável quanto a esse tipo de assunto!

Até a próxima!

Bela Gil, Placenta e Maternidade

Eu até tento entender o 'esforço' que a Bela Gil faz para falar sobre saúde e alimentação. E eu a admiro muito por dar risada de si mesma - principalmente quando se fala no meme 'você pode substituir tal coisa por linhaça, por exemplo'. Pra não ficar tentando me enfiar embaixo da cama enquanto assisto as coisas que ela insiste em falar no programa (pH sanguíneo e doenças é a pior!), eu simplesmente parei de assistir. Acho que ela tem receitas super legais - receitas sempre são válidas - mas o que não dá pra digerir são as informações.

Mas vira e mexe a gente recebe alguma coisa, lê um negócio ali e outro aqui e lá vai ela contaminando toda sua timeline com uma notícia extraordinária. A última dela foi sobre uma refeição pós parto: a deliciosa placenta (com banana batida, hmmmm delícia, #sqn).

"Lá vamos nós", pensei. Mas Nossa Senhora do Bom Senso (ou da minha distração, vai saber) não me permitiu enxergar nada nem ninguém se inspirando nessa notícia. Aleluia!

Com aquela inquietação que só a Bela Gil pode provocar na gente - eu tendo a ignorar essas reportagens que mais parecem saídas do sensacionalista - fui buscar sobre o ato de comer placenta. Essa técnica, chamada placentofagia, é comum entre os mamíferos em geral. Os animais comem a placenta para eliminar os rastros do parto (que podem atrair roedores) e talvez por motivos biológicos: a placenta contém níveis de hormônios e derivados de hormônios (prostaglandina e ocitocina) que atuam na involução do útero, no stress pós parto e na ejeção do leite pelas mamas.

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Até onde eu sei, as pessoas que comem a placenta fazem isso porque os 'nutrientes' lá encontrados podem auxiliar nesses fatores que citei acima. Mas comer placenta não é a única maneira de tentar evitar problemas como depressão, alívio da dor e etc. A amamentação, por exemplo, é relacionada a esses benefícios - porque amamentar não é só bom para o bebê, para a mãe também é! O parto normal também está relacionado com vários benefícios e até o planejamento familiar pode ter influência no bem estar da mamãe após o nascimento.

E o que mostram os periódicos científicos de confiança, é que essa prática tem base totalmente empírica. Estudos realizados em animais não foram aplicados em seres humanos, e ainda assim são incloncusivos.

Óbvio que a Bela Gil é apenas uma pessoa no meio de uma turma que come placenta, e não quero pegar essa figura tão simbólica e colocá-la como Cristo. Ela teve as razões dela - que infelizmente não tem fundamento científico - e acredito até que exista algo de metafísico e energético no ato (conexões que eu super respeito e acredito). Mas acho que ela poderia usar toda a sua visibilidade para contar o quanto é importante amamentar, por exemplo. Contar que a amamentação está ligada a redução dos riscos de sangramento e depressão pós parto, que aumenta o vínculo mãe e bebê, que auxilia no desenvolvimento bucomaxilo da criança, que pode auxiliar a retomada de peso pós parto (que não deve ser uma prioridade, mas sei que é uma preocupação), entre outras.

Além disso, acredito que ela poderia também produzir receitas para novas mamães, explicar que canjica e cerveja preta não produzem leite (apenas te hidratam e te dão mais energia, mas não são milagrosas), contar que algumas crianças tem cólicas provocadas pela alimentação da mãe - e outras não - e mostrar que a maternidade tem coisas que vão muito, mas MUITO mais além desse romantismo todo que é pregado ao tempo todo.

Como eu disse acima, acredito que a Bela Gil tem um discurso muito interessante quando ela mostra a importância de cozinhar e preferir os alimentos locais e naturais. E ela tem toooooodo o direito de comer a placenta - afinal é dela e do bebê dela. Mas me incomoda a divulgação desse fato como algo leviano: é mais um mito ou fato infundado pra aumentar a preocupação das mulheres e o imaginário dos leigos.

E se você tem alguma dúvida sobre o que comer depois do parto: consulte seu médico, e não a Bela Gil. Ok?

Até a próxima!