Força, Guerreira!

Força, Guerreira!

Semanalmente recebo de alguém diversos conteúdos das redes sociais: uma digital influencer que vive dizendo que precisa acumular créditos na academia para o jantar de mais tarde, ou a festa do final de semana que vem. Outra blogueira de moda dizendo que o look é mara porque deixa qualquer mulher bem magra. Uma youtuber reclamando que o short - nitidamente de um número pequeno - não entra. Uma nutricionista dizendo que não é porque #sextou que você pode #jacar.

Sem falar na imensidade de meninas super magras/saradas que vivem reclamando do inchaço pós ou pré férias, necessitando URGENTE de um detox ou uma massagem milagrosa. 

Se está ruim pra ela, imagina para mim?

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A velha calça desbotada (ou coisa assim)

A velha calça desbotada (ou coisa assim)

Sexta feira fiz duas enquetes no meu instagram: 'você guarda roupas da época que tinha um peso/formato de corpo diferente na esperança de usá-las um dia?' e 'você que está tentando ou pretende emagrecer está guardando suas roupas antigas esperando que use essas roupas novamente?'. 

O resultado vocês já podem imaginar: a grande maioria disse que sim.

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Ser real para (se) amar legal

É de manhã, tomo meu café, e dou um check nas redes sociais. Nada de novo no mundo do instagram: meninas lindas e produzidas comprando o último must have da estação; semi-nuas e saradas sugerindo que você vá malhar logo, tomando o bulletproof coffe (ou qualquer alimento da última moda); e mulheres 'empoderadas' (sei lá se gosto desse termo) falando para você: "se ame, se goste!". Você pode até achar que essa última se diferencia das duas primeiras. E de fato, há uma diferença na mensagem. A 'empoderada' nega o TER - porém, pratica o SER. A obrigação existe nos três discursos.

Há um tempo venho notando que o movimento Body Positivity muitas vezes pode beirar a obrigação, e me questiono se esse realmente é o caminho. Depois de rolar o dedo na tela do meu iphone pela terceira vez no dia, concluo que não.

Muito se fala sobre amar o corpo que temos. Mas será que essa ordem não faz justamente o contrário do que deveria ser feito? A idéia é fazer com que o corpo não seja o centro de tudo ou o motor de uma mudança de hábitos ou de estética - isso tem que vir de dentro. Ordenando ou sugerindo para que você se ame mais e mais, o corpo  continua ali, o centro dessa obrigação.

Pode ser que muitas mensagens não envolvam somente o 'se ame' físico. Mas mensagens como 'você é importante, você é linda, você pode, você etc' também dão um nó na minha cabeça. Será que o caminho do tal amor próprio tem mesmo que ser pavimentado com tantas imposições?

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Mas e a realidade?

O movimento Body Positive tem uma importância imensa, porque grande parte do propósito é baseado na desconstrução do corpo perfeito - passo essencial para o resgate da auto aceitação e do auto conhecimento. Mas me pergunto onde fica a nossa realidade. Afinal, somos seres imperfeitos, e tem dias que a não há santo que nos prove que somos capazes, fortes e lindas (por dentro e/ou por fora). Sinto falta de um discurso humano, um 'vem aqui, é assim mesmo, tem dias que é f*da'.

Somos únicas e únicos. Somos importantes. Mas também somos seres de carne e osso, que as vezes ficamos chateados com o menor dos problemas - e sim, muitas vezes com a nossa própria aparência.

O que sinto hoje com toda essa campanha do 'love/embrace yourself' é que algumas pessoas ficam totalmente perdidas e frustradas, porque não conseguem se sentir tão importantes como está sendo sugerido. Ou não conseguem se amar. E principalmente, se sentem envergonhadas perante suas naturais chateações: mais uma vez incapaz.

Li uma frase interessantíssima de um texto: "Ao invés da gente se sentir menos mal porque tem celulite, sentimos vergonha por não gostar da celulite". Ou seja: apenas mudamos de problema. Se antes o problema era não conseguir aceitar a celulite, agora é não conseguir aceitar nossa insatisfação.

Conforto, neutralidade e naturalidade.

Concordo e apoio a idéia do Body Positve - e todas as mensagens de amor próprio espalhadas por aí. Mas o termo - e o conceito - do Body Neutrality fala mais a minha língua.

A idéia é tirar o corpo do centro da discussão, reduzir a pressão do 'você tem que se amar' e levantar outras questões. Até porque, amor próprio não é aquela coisa de ser importante, linda, feliz e essencial o tempo todo: amor próprio é justamente se entender, se aceitar. Melhor do que o termo 'amor próprio', eu prefiro o termo 'respeito próprio'.

"A obrigação de amar o próprio corpo não deve ser um antídoto contra o ódio" - Anastasia Amour

Querer se amar a todo custo não funciona sem antes entender que somos seres humanos cheios de realidade. Todos nós temos fragilidades e capacidades individuais, muitas mutáveis, outras permanentes. Precisamos, antes do amor próprio, de boas doses de naturalidade e neutralidade.

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Se sentir confortável com o próprio corpo não quer dizer apenas amar a imagem no espelho e não lutar por um padrão inatingível de beleza. É também se sentir confortável com as insatisfações que nos rondam. Você não está feliz com algo - e a escolha de mudar não é pautada nas observações externas? Vá em frente! Você pode tentar mudar. E também tem a opção de simplesmente entender que aquilo ali te deixa meio p* da vida de vez em quando.

A neutralidade das nossas atitudes e sentimentos perante nosso corpo, ao meu ver, é muito mais importante e impactante do que a repetição da boca pra fora de frases como "se ame".

Espero que tenham gostado!

Leia mais em:

http://www.modefica.com.br/4-problemas-escondidos-por-tras-do-discurso-ame-seu-corpo/#.WPUm2bvytKM

http://www.manrepeller.com/2017/03/body-neutrality-movement.html

http://nymag.com/thecut/2017/03/forget-body-positivity-how-about-body-neutrality.html

Não seja um bolo de padaria

Esses dias recebi uma enxurrada de emails/comentários/mensagens (foi impressionante) sobre um caso de photoshop no mundo fitness. Perguntando se eu havia visto, qual era a minha opinião, etc e tal. Ao mesmo tempo, recebi um email muito simpático de uma menina que perdeu 22kg porque sua saúde havia começado a se deteriorar mas estava se sentindo mal por querer cuidar da vaidade. Afinal, ela entende que essa preocupação louca com o corpo é uma absurdo, mas também não concorda com quem julga aquele que quer cuidar da aparência. Como uma leitora de bons blogs, me escreveu dizendo estar se sentindo mal em querer melhorar o corpo, uma vez que sente um julgamento das pessoas que não concordam com o mundo fitness.

Então nada mais justo que escrever sobre esse assunto, dando aqui a minha opinião pessoal e profissional. Faço aqui, um apelo a liberdade de escolha, respeitando o verdadeiro conceito de equilíbrio, consciência e amor próprio.

A preocupação excessiva com a aparência é desnecessária. Isso é um fato.

Atentem-se para o fato de que adjetivei preocupação com "excessiva"

Sendo assim, fica óbvio que estou concordando que o uso de photoshop para correção de imagens (sobretudo que já estão boas) é uma preocupação excessiva e desnecessária, certo? É uma forma de procurar o perfeito que não existe, é a prova de que nem um corpo escultural nem sempre está relacionado com auto estima e o atestado de insatisfação pessoal.

Mas a questão aqui não é o uso ou não do photoshop (aguardo ansiosamente o dia que o discernimento dos leitores desse tipo de mídia alcançar o patamar ótimo, de entender que nem tudo é o que parece). A questão é que a atitude das pessoas que se importam demais com isso não é coerente com o discurso "se ame, se cuide". E que o outro lado, que apoia a afirmação que a preocupação estética está beirando exagero, também está fazendo julgamentos equivocados.

Como assim Marina?

Verifiquei vários destes perfis que falam sobre saúde e alimentação. Naqueles que recorrem ao discurso #equilíbriosempre, #bepositive #nopainnogain e etc, vi que as frases e palavras mais citadas falam sobre equilíbrio, auto estima, sobre ser você mesma, sobre se amar, etc, etc etc. Eu concordo em cada palavra: acho que a gente tem que gostar da gente sim, auto estima é muito importantee equilíbrio é fundamental - porém, a gente não precisa viver disso. Até porque, equilíbrio é colocar dois lados opostos alinhados - defeitos e qualidades, dias ruins e dias bons, sentimentos maravilhosos e péssimos - e não querer ser a perfeição o tempo todo.

Em contrapartida, existem aqueles que vão na contramão esse estilo de vida 'fit'. O que é excelente, se não fosse pelo pré-conceito e julgamento que acompanham muitas vezes um discurso ácido que deixa parecer que qualquer pessoa que decide se cuidar é fútil e/ou fraca da cabeça.

E por final, vi pessoas brigando nos perfis, advogando para a causa alheia (e em causa própria), uma lavação de roupa suja, ofensas gratuitas, um tal "vi seu perfil e você é gorda, isso deve ser recalque" ou "vi seu perfil e você é até bonita, ma não adianta nada, porque é muito burra!"... zzzzzzzz....

Para essa última observação, só deixo o meu lamento e uma ponta de vontade de ter tanto tempo disponível, hahahaha.

Mas tirando a falta de serviço das pessoas, quero mostrar onde esses dois primeiros pontos que discordam se encontram.

Na falta de coerência - e o tão esperado equilíbrio

Eu também discordo da maneira com a qual os perfis fitness em geral trabalham a saúde e a auto estima - eles continuam apenas passando uma mensagem extremamente radical, disfarçada de 'good vibrations'. Eu creio que ter equilíbrio (e saúde) é comer sua comida habitual - aquela convencional, sem inventar muita moda só porque é fitness ou light- cometer seus 'deslizes' de maneira consciente, buscar o corpo que vai fazer você se elogiar antes dos outros te elogiarem e praticar atividades físicas na medida que te agradar

- e claro, não buscar a perfeição. Uns dias você se sente assim, outros assado, e isso faze parte da vida, ninguém é positivo o tempo todo e não tem problema nenhum e ficar estressado/triste de vez em quando. E nem por isso você precisa se autodepreciar por aí, nesses dias ruins, com aa intenção exclusiva de receber elogios -

Elogio todo mundo gosta, mas é bom quando é gratuito!  Sabe aquela frase 'é só um dia ruim, não uma vida ruim?'. Então...você pode até tentar e conseguir transformar um dia péssimo em ótimo, mas você com seus problemas e não buscando a aprovação alheia.

Isso tudo que eu falei acima é o oposto do que vemos na internet: a idéia de que equilíbrio é ter a obrigação de fazer exercícios físicos de maneira exagerada, comer tubos de comida #dobem ou light ou diet, além de pregar o amor próprio se mostrar totalmete inseguro e insatisfeito, se colocando de coitadinhas (os) 60% do tempo, afim de receber aplausos e comentários do tipo 'imagina, tá linda!'. E claro, se sentir pressionada a ser feliz & disciplinada & poderosa & capaz 24 horas por dia, afinal.

E também não tenho a mínima pretensão de julgar se é errado ou certo o uso de photoshop, seja de quem for. Cada um faz o que quer de si. Só acho meio bobo pregar uma coisa e fazer outra.

É mais ou menos como se eu escrevesse esse blog e prescrevesse dietas radicais no meu consultório. Entendem?

A nossa vida é feita de escolhas e cada um tem a sua. Justamente por isso, não estou aqui somente para opinar sobre o falso equilíbrio que ecoa nas redes sociais e na mídia em geral, muito menos para execrar quem usa o photoshop. Estou aqui também para defender o outro lado, o lado de quem se cuida olhando para dentro. Que é o caso do email fofíssimo que recebi.

Não há problema nenhum em depositar parte da sua auto estima na sua imagem. Acho lindo mulheres e homens que se cuidam. Mas que também entendem que não é obrigação de ninguém ficar linda e feliz o tempo todo. Tem dias que a gente tá de saco cheio e não quer saber de ser nada. E quer saber, tá tudo bem também! Ficar correndo atrás dessa felicidade eterna e essa beleza sem fim é uma busca frustrante e cansativa.

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E claro, não vamos ser hipócritas em dizer que pouco importa a admiração alheia. Acho que a grande diferença está na prioridade que essa admiração é colocada, e como é colocada. As pessoas estão cada dia mais propensas em só se sentirem bem se o outro elogiar, gostar e admirar. Mas eu acredito muito na inversão da ordem: primeiro goste de você, olhe pra você, cuide de você, conheça e entenda você. Assim você não precisará se preocupar em impressionar ninguém, e muitas vezes, nem a você mesma. O erro está em DEPENDER disso tudo para se sentir bem.

O mesmo bom senso que breca o julgamento pela aparência física deve permanecer em respeitar quem se cuida e está bem consigo.

E claro, se cuidar e se amar é completamente diferente de falar de dieta e comida 24 horas por dia. Não é achar que a salvação do mundo está no bumbum empinado e nem na autoconfiança full time. Não é expor seu corpo e seu lifestyle em troca única de algum tipo de reconhecimento. E por fim, não é pensar que você é um ser superior porque leva batata doce fria para o lanche da tarde, enquanto seu colega se satisfaz com 3 biscoitinhos nesfit suuuuuuuuper industrializados (que veneno, #sqn).

Se cuidar é se amar porque se gosta, é se sentir melhor assim do que assado por você, é se expor sem expectativa de aplausos ou elogios, é entender que ninguém tem a obrigação de ser perfeita o tempo todo. Ninguém levanta a nossa auto estima se nós mesmos não tivermos condições de colocá-la de pé. E isso tudo também não tem nada a ver com desequilíbrio emocional e transtornos alimentares.

Por fim, gosto de lembrar que a estética é somente uma casca - muito frágil por sinal. Não adianta estar linda e maravilhosa mas não ter assunto e se fazer de feliz quando não está (e tem dia que não estamos mesmo!), somente para mostrar o quanto você faz parte do pacote LINDA & PODEROSA. Pessoas que tem uma auto estima realmente legal sabem que ninguém é perfeito e que a vida é feita de altos e baixos - e claro, não querem (apenas) visual, querem gente de verdade, gente interessante!

Spoiler: se o desinteressante te encanta, provavelmente é porque você também é desinteressante.

Encantamento nada tem a ver com curiosidade. Adoramos observar pessoas que tenham algo legal (desde a beleza até as atitudes). Mas isso é bem diferente de encantamento e admiração frenética.

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Imagem não determina valor (como diz o Não Sou Exposição). E enxergar isso não significa que querer se cuidar um pouco mais te torna um ser humano chato e fútil. Não significa que estar com uns quilos a mais te tira o direito de se sentir insatisfeita - e nem te dá o dever de emagrecer. Defendo até o final dos meus dias a proposta de se cuidar para ser a melhor versão de você, do jeito que VOCÊ gosta. Não confundam amor próprio com futilidade e vaidade boba.

Não tem erro em querer se livrar da celulite, está errado é pensar que você é a pior pessoa do mundo e barrar sua felicidade em prol de relevos na coxa. Se a gordurinha te incomoda e você quer emagrecer para VOCÊ ficar feliz quando se olha no espelho - e não precisar cometer verdadeiros absurdos para tal - vá em frente. Se você tem quilos a mais e não se importa, anda com sua saúde em dia e se sente uma ótima pessoa, que bom!

Acreditem em mim: quando fazemos algo para o nosso bem, de coração,  e com equilíbrio verdadeiro o retorno é automático e muitas vezes inesperado - afinal, você está tão preocupado em se gostar que desencana em se mostrar.

E photoshop pode até consertar imperfeições (ou perfeições). Mas não atinge a camada mais profunda e bela do nosso corpo, que é o sentimento. As vezes você pode ter um belo castelo mas ninguém para te fazer companhia naquela imensidão... Ou seja: pode ter uma carcaça maravilhosa, mas um conteúdo fraco, sem graça e desinteressante. E pode também ser um belíssimo ser humano, arrancar suspiros por onde passar, mas ter valores e qualidades maiores ainda que chegam a ofuscar a própria beleza!

Só não vale ser bolo de padaria, que agrada os olhos mas não tem sabor!

Até a próxima!

Mil beijos,