Tá pago! (no crédito)

"Festinha hoje a noite, vou tomar uns drinks, comer umas coisas diferentes... bora malhar pra acumular uns créditos, né?". "Treininho de hoje tá Pago". 

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Parece que falar esse mecanismo é quase obrigatório de quem quer se manter sarado ou se mostrar preocupado com a 'saúde'. A idéia de que se você malhar bastante vai acumular créditos para poder comer depois ou subir correndo na esteira para poder 'pagar a dívida' de ontem é muito disseminada, mas uma inverdade. Nosso corpo não é um banco: não existe essa de crédito, débito, dívida, cheque especial ou empréstimo. 

Essa compensação não é apenas errada no ponto de vista biológico, como prejudicial no ponto de vista psicológico.

Biológico: crédito ou débito? 

São várias as razões para essa compensação não fazer sentido. Começando pelo gasto calórico: se a gente contar calorias - o que jamais vamos fazer, porque também não tem sentido nenhum - veremos gasto calórico de uma atividade física é muito inferior ao que você vai comer/beber em um evento social. Fazer 1 hora de esteira, escada, ou seja lá o que for não equivale ao consumo calórico da festa/jantar que você vai. Você pode sentir um bem estar físico geral quando pratica atividades físicas, mas isso não é um acordo bancário que garante que você irá pagar com créditos o débito que gerou ou vai gerar.

Além disso, o gasto calórico (durante a atividade física) é individualizado e depende de muitos outros fatores: do seu gênero, capacidade aeróbica, composição física (gordura versus massa magra), tempo gasto, idade e vários outros detalhes que a esteira ou seu contador de calorias do relógio não tem como calcular com precisão. 

 É pra isso que pago internet, hahahaha

É pra isso que pago internet, hahahaha

Sem falar que seu corpo não tem bola de cristal e não sabe que essa atividade que você está fazendo agora serve pra compensar o que você vai comer mais tarde. Nós não gastamos e armazenamos calorias pra ter um corpo sarado e postar foto no instagram com frase motivacional. Nosso metabolismo funciona com a finalidade única de nos manter vivos. E isso é bem maior que a rede social. Ou seja: por mais que você acredite que aquilo está resolvendo, seu corpo pode estar apontando para outro movimento. Estou dizendo para não fazer exercícios? Claro que não. Ser mais ativo e/ou praticar atividades físicas é essencial para o bem estar, mas sem essa de compensar algo, principalmente em ocasiões que não fazem parte da rotina. 

Afinal, nós acumulamos energia em superávit calórico, isso é um fato. Mas esse superávit tem que ser real e repetido. Não é um dia que você pensa que exagerou - e na verdade só comeu coisas da sua lista do 'proibido' - que você realmente gerou um excesso. São vários dias comendo além do que você já está habituado (em quantidade e qualidade), e não a balada de sexta a noite ou o jantar de quarta-feira. E quem vai saber se você está fazendo isso? A nutricionista. Delegue a função de descobrir e avaliar se algo está em desordem para o especialista. Contar calorias por si só afim de entender o que está acontecendo é entrar em outro caminho sem fim, onde você vira uma escrava dos números e aí sim as trocas mais sem sentido do planeta continuam. 

E pra terminar: essas eventualidades só vão alterar o seu peso se, no seu estado normal, você está forçando (repetidas vezes) seu corpo a ser algo que ele não é. Sabe aquele post que escrevi sobre 'emagrecer ou ser magro?'. Então! Talvez você esteja numa restrição muito grande e num peso muito desconfortável para seu corpo: ele então tentará de várias maneiras retomar para o peso médio, ou até ganhar peso. Qualquer 'excesso' - que na verdade não é excesso, é normalidade - vai apontar para o ganho de peso. 

Se você é uma pessoa que tem uma rotina alimentar pratica exercícios com regularidade - ou tem uma vida bem ativa - o seu corpo vai responder a esse estímulo de uma maneira muito natural. Qualquer ocasião fora do dia a dia não vai virar estoque energético. Mas atenção: rotina alimentar e exercícios físicos regulares não são sinônimos de dieta restritiva e exercícios em excesso. 

Portanto, acumular créditos e queimar o de ontem no ponto de vista biológico não fazem sentido nenhum. Praticar exercícios físicos regulares (ou ser fisicamente ativo) pode te ajudar muito a ter uma vida saudável e um peso estável (independente de qual ele seja). Mas jamais funcionará da maneira que você acredita: em sistema de crédito e débito.

Psicológico: sempre em dívida

Segundo o DSM-V, um dos critérios diagnósticos para determinados Transtornos Alimentares é observar esses movimentos compensatórios: a prática de exercício físico intenso para 'queimar' ou 'acumular crédito' é um deles. 

Fui consultar a Camilla Estima sobre o assunto: "Essa prática é muito desaconselhada, pois gera uma relação alimentar de causa e efeito, na qual você se coloca numa obrigação para praticar exercícios e comer de uma determinada maneira que todos os outros sinais essenciais, intuitivos e saudáveis que nos levam a uma escolha alimentar". 

Quer dizer que quem faz isso tem um transtorno? Não. Mas quem tem um transtorno alimentar faz isso. "O grande perigo desse comportamento é que ele é normalizado, inclusive pelas redes sociais", frisou Camilla. 

Sem contar que a pessoa sente que sempre está em dívida. Aí tem que pagar algo. Chato né?

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E se você der uma olhada por aí, o "tá pago' é uma das frases mais ditas e postadas. Todo mundo tem um conhecido que faz questão de mostrar que está treinando pra queimar, ou ainda insere aquela frase péssima "vai gordinha" quando está na bike ou na esteira, fazendo alusão ao jantar também postado do dia anterior. A idéia de que isso é natural fortalece o comportamento para que pessoas que tem uma má relação com a comida ou transtornos alimentares. Além disso, entramos num eterno ciclo de exagero e restrição, algo NADA saudável (nem pro peso, nem pro corpo).

Ser uma pessoa mais ativa e fazer boas escolhas alimentares é possível sem nenhum mecanismo compensatório. Pode parecer um sonho distante, mas acredite: é possível. Repita comigo: nosso corpo não é um banco e a digital influencer que quer acumular o crédito não está preocupada com saúde: está preocupada com a estética (e errando feio nesse raciocínio!).

No crédito ou no débito, só as boas coisas da vida, ok?

Até a próxima!

Marina

- Colaborou Camilla Estima, nutricionista com foco em Mudança Comportamental. Pra saber mais sobre Camilla (ela atende no Rio de Janeiro) é só clicar no site dela! -

https://www.camillaestimanutricionista.com/