Vou contar sobre os shakes

Shakes dietéticos são velhos conhecidos do mundo do emagrecimento. Me lembro das propagandas de cinturas envolvidas em uma fita métrica e um copo da bebida que se assemelhava a um milkshake de chocolate estampando várias páginas de revistas. Também me lembro dos carros com adesivos Herbalife, e até hoje é só dar uma volta pelas academias que você verá muita gente com sua garrafinha sendo sacudida pra lá e pra cá logo depois de acabar a malhação.

Eu, na minha inocência, acreditava que as pessoas já tinham entendido que trocar refeições por shakes não é uma boa opção. Ledo engano: a pergunta ‘o que você acha de shakes’ ou ‘você recomenda um dia de sucos detox?’ são perguntas frequentes por aqui - e lá no instagram do blog.

O PODER DOS SHAKES

A promessa dos shakes é proporcionar o emagrecimento com saúde ‘pois uma porção equivale a uma refeição e é nutritivamente completo’ ou ‘garante a quantidade necessária de nutrientes de uma refeição'. Em geral recomenda-se substituir 2 ou mais refeições pelo shake.

Design sem nome.jpg

Um shake ‘famoso’ tem, em média, 100 kcal, distribuídas entre 10g de proteína, 9,9g de caboidrato, 1,9g de gordura e 3g de fibras. Os componentes dessa bebida podem variar de acordo com o fabricante, mas a grande maioria é composta de proteína isolada de soja, maltodextrina, frutose, espessantes, edulcorantes, pectina, estabilizantes, emulsificantes e etc.

Já os sucos detox são sucos naturais feitos com frutas e vegetais, vendidos geralmente em ‘combos’ que prometem a detoxificação do seu corpo - no caso dos sucos, há recomendação de utilizá-los em substituição a refeição ou consumo exclusivo durante um determinado período.

O emagrecimento ocorre - ‘metabolicamente’ falando - através de déficit energético, ou seja, sob a redução do consumo de calorias. Eu ‘não conto calorias’ porque sei o quão fadado ao fracasso é o sistema de contagem calórica para o emagrecimento, já que esse método (e qualquer outra restrição e controle) coloca a quantidade acima da qualidade e não considera as preferências e o comportamento alimentar de cada um.

Porém, é inegável dizer que é através dessa diferença calórica que nosso corpo se desfaz de toda a energia extra (gordura). Considerando que um shake (ou um suco) tem em torno de 100 kcal, a matemática fica favorável para a perda de peso.

Imagine um prato ‘padrão': arroz, feijão, peito de frango e salada de alface e tomate. Só o peito de frango já tem um valor calórico maior do que o shake. Ou seja: quando você substitui a refeição, está gerando déficit energético e favorecendo a perda de peso. Matematicamente é uma maravilha, certo? Mas na prática a conversa é outra.

Por mais que o fornecedor desses produtos garanta que a bebida é nutritiva, ela não é. Um nutriente não é o mesmo nutriente independente do local - a forma de apresentação é essencial para que sua absorção seja realizada. Ou seja: tirar a vitamina C do tomate e colocá-la no shake pode não se suficiente para garantir a absorção desta.

Além disso, a variedade alimentar ao longo dos nossos dias nos garante diversidade de vitaminas e minerais, necessárias para a nossa saúde.

E por último, mas não menos importante, vem a questão da satisfação. E não é saciedade, porque isso fica garantido pelo shake e sua alta concentração de fibra e proteína. É a capacidade que a comida tem de satisfazer nossos desejos. Sabe quando você quer muito comer um doce e tenta ‘tapear’ com uma banana? E não adianta? Daí você fica procurando algo pra disfarça e depois de muitas tentativas, cai no doce? O mesmo vai acontecer com os shakes. Deu a hora do almoço, você e seus amigos do trabalho saíram pra almoçar e querem muito comer um strogonoff com arroz e batata na esquina. Mas você desvia o trajeto para tomar seu shake de ‘chocolate’ (porque tem tudo ali, menos chocolate). No primeiro dia você pode ter a sensação de superação, no segundo dia a sensação de vitória, no terceiro começa a sentir um pouco de vontade de não tomar o shake… até que chega o dia de ceder a tentação e curtir o almoço com a turma. Você come como se não houvesse o amanhã, pede a porção extra, aproveita pra caprichar no refri e ‘já que estamos aqui', comer uma sobremesa também, porque não?

Nosso biológico é superior a qualquer malfadada teoria da força de vontade. Você pensa que está enganando seu corpo com o shake dietético que promete milagres, mas ele sabe o que quer - e vai fazer de tudo para obtê-lo. Caso você não interrompa logo essa substituição maluca, pode se colocar em grandes problemas.

Quais problemas?

É só dar uma pesquisada no Pubmed (um motor de busca à base de dados científicos) que você verá diversos relatos de hepatotoxicidade* relacionados ao consumo de shakes (principalmente Herbalife). Isso deveria ser suficiente para que você pudesse já esquecer a idéia de substituir sua refeição por shake, mas peraí que tem mais um pouco se você não está convencido.

O consumo de shakes e sucos - e até shakes ‘naturais', tá? - podem causar deficiência de vários nutrientes, desde os macro (carboidratos, proteínas e lipídios) até os micro (vitaminas e minerais), além de serem muito pobres em fibras (tanto na quantidade, como na qualidade).

Não podemos nos esquecer que a restrição - porque sim, essa substituição é uma restrição! - pode levar a compulsão. Ou seja: você deixa de almoçar e/ou jantar para tomar o shake, e quando menos espera está devorando muita comida com sensação de perda de controle. Essas compulsões podem ser isoladas ou podem ser parte de transtornos alimentares como Anorexia Nevosa, Bulimia Nervosa ou Transtorno da Compulsão Alimentar. Tanto os transtornos alimentares quanto episódios isolados de compulsão favorecem o ganho de peso -exatamente o oposto do que você procura quando toma os shakes.

Os sucos detox também seguem o mesmo raciocínio. Mas como são feitos de ingredientes naturais e levam esse nome (detox), dão a falsa sensação de um produto melhor, mais saudável. Ledo engano. Mas pra não me prolongar muito, sugiro aqui algumas leituras sobre detox: o mito do detox, dieta detox e sobre os chás.

Portanto, cuidado com as ofertas de shakes milagrosos e emagrecedores. Os prejuízos que eles trazem são muito maiores do que o benefício - na maior parte do tempo - temporário da perda de peso. E se você quer saber mais do porque esses shakes continuam sendo vendidos - e como eles movimentam bilhões - sugiro que assista o documentário Betting On Zero (disponível no Netflix).

Até a próxima

Marina

*Hepatotoxicidade é um dano no fígado causado por substâncias tóxicas