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escadinha
love

É de manhã, tomo meu café, e dou um check nas redes sociais. Nada de novo no mundo do instagram: meninas lindas e produzidas comprando o último must have da estação; semi-nuas e saradas sugerindo que você vá malhar logo, tomando o bulletproof coffe (ou qualquer alimento da última moda); e mulheres ’empoderadas’ (sei lá se gosto desse termo) falando para você: “se ame, se goste!”.

Você pode até achar que essa última se diferencia das duas primeiras. E de fato, há uma diferença na mensagem. A ’empoderada’ nega o TER – porém, pratica o SER. A obrigação existe nos três discursos.

Há um tempo venho notando que o movimento Body Positivity muitas vezes pode beirar a obrigação, e me questiono se esse realmente é o caminho. Depois de rolar o dedo na tela do meu iphone pela terceira vez no dia, concluo que não.

Muito se fala sobre amar o corpo que temos. Mas será que essa ordem não faz justamente o contrário do que deveria ser feito? A idéia é fazer com que o corpo não seja o centro de tudo ou o motor de uma mudança de hábitos ou de estética – isso tem que vir de dentro. Ordenando ou sugerindo para que você se ame mais e mais, o corpo  continua ali, o centro dessa obrigação.

Pode ser que muitas mensagens não envolvam somente o ‘se ame’ físico. Mas mensagens como ‘você é importante, você é linda, você pode, você etc’ também dão um nó na minha cabeça. Será que o caminho do tal amor próprio tem mesmo que ser pavimentado com tantas imposições?

joanrivers

Mas e a realidade?

O movimento Body Positive tem uma importância imensa, porque grande parte do propósito é baseado na desconstrução do corpo perfeito – passo essencial para o resgate da auto aceitação e do auto conhecimento. Mas me pergunto onde fica a nossa realidade. Afinal, somos seres imperfeitos, e tem dias que a não há santo que nos prove que somos capazes, fortes e lindas (por dentro e/ou por fora). Sinto falta de um discurso humano, um ‘vem aqui, é assim mesmo, tem dias que é f*da’.

Somos únicas e únicos. Somos importantes. Mas também somos seres de carne e osso, que as vezes ficamos chateados com o menor dos problemas – e sim, muitas vezes com a nossa própria aparência.

O que sinto hoje com toda essa campanha do ‘love/embrace yourself‘ é que algumas pessoas ficam totalmente perdidas e frustradas, porque não conseguem se sentir tão importantes como está sendo sugerido. Ou não conseguem se amar. E principalmente, se sentem envergonhadas perante suas naturais chateações: mais uma vez incapaz.

Li uma frase interessantíssima de um texto: “Ao invés da gente se sentir menos mal porque tem celulite, sentimos vergonha por não gostar da celulite”. Ou seja: apenas mudamos de problema. Se antes o problema era não conseguir aceitar a celulite, agora é não conseguir aceitar nossa insatisfação.

Conforto, neutralidade e naturalidade.

Concordo e apoio a idéia do Body Positve – e todas as mensagens de amor próprio espalhadas por aí. Mas o termo – e o conceito – do Body Neutrality fala mais a minha língua.

A idéia é tirar o corpo do centro da discussão, reduzir a pressão do ‘você tem que se amar’ e levantar outras questões. Até porque, amor próprio não é aquela coisa de ser importante, linda, feliz e essencial o tempo todo: amor próprio é justamente se entender, se aceitar. Melhor do que o termo ‘amor próprio’, eu prefiro o termo ‘respeito próprio’.

“A obrigação de amar o próprio corpo não deve ser um antídoto contra o ódio” – Anastasia Amour

Querer se amar a todo custo não funciona sem antes entender que somos seres humanos cheios de realidade. Todos nós temos fragilidades e capacidades individuais, muitas mutáveis, outras permanentes. Precisamos, antes do amor próprio, de boas doses de naturalidade e neutralidade.

As incríveis ilustrações de Carol Rosseti

As incríveis ilustrações de Carol Rosseti

Se sentir confortável com o próprio corpo não quer dizer apenas amar a imagem no espelho e não lutar por um padrão inatingível de beleza. É também se sentir confortável com as insatisfações que nos rondam. Você não está feliz com algo – e a escolha de mudar não é pautada nas observações externas? Vá em frente! Você pode tentar mudar. E também tem a opção de simplesmente entender que aquilo ali te deixa meio p* da vida de vez em quando.

A neutralidade das nossas atitudes e sentimentos perante nosso corpo, ao meu ver, é muito mais importante e impactante do que a repetição da boca pra fora de frases como “se ame”.

Espero que tenham gostado!

Leia mais em:

http://www.modefica.com.br/4-problemas-escondidos-por-tras-do-discurso-ame-seu-corpo/#.WPUm2bvytKM

http://www.manrepeller.com/2017/03/body-neutrality-movement.html

http://nymag.com/thecut/2017/03/forget-body-positivity-how-about-body-neutrality.html